Brincando em Comunidade, da autora Paloma Severo, é uma obra marcante sobre infância e pertencimento

Em Brincando em Comunidade, Paloma Severo escolhe um caminho precioso: contar a história a partir do olhar de uma criança. Rafa, um menino de seis anos, é quem nos conduz por sua rotina na comunidade de São Judas Tadeu, na Zona Norte de Juiz de Fora. E é justamente essa perspectiva infantil curiosa, afetiva e atenta, que transforma o cotidiano em algo digno de ser narrado, observado e valorizado.

Rafa fala de sua casa, de sua família formada majoritariamente por mulheres, de sua avó, de sua mãe, dos vizinhos e das pequenas relações que sustentam o dia a dia. Nada é espetacular no sentido tradicional, mas tudo é profundamente significativo.

A narrativa mostra que existe beleza nas casas simples, nas conversas na calçada, no cuidado coletivo e nas brincadeiras que acontecem nos espaços comuns.

A comunidade como espaço de afeto e aprendizagem

Um dos grandes méritos do livro está na forma como a comunidade não aparece apenas como cenário, mas como parte ativa da formação de Rafa. Ele fala da praça onde brinca, do “busão” que leva os adultos para o trabalho logo cedo, da vizinhança onde todos se conhecem e se ajudam, como dona Gê, que sempre prepara um bolo de cenoura para compartilhar.

Esses elementos constroem uma ideia potente de pertencimento. A comunidade é apresentada como um espaço vivo, feito de gente, histórias e relações.

Para o leitor infantil, isso reforça a noção de que o lugar onde se vive importa. Para o leitor adulto, o livro funciona como um convite à escuta e à revisão de olhares muitas vezes marcados por estigmas quando o assunto é periferia.

Escola, sonho e possibilidade de futuro

Outro eixo central da narrativa é a escola. Rafa deixa claro o quanto gosta de aprender, de ouvir histórias, de brincar e de descobrir coisas novas.

A escola não é retratada como obrigação, mas como espaço de alegria, curiosidade e descoberta. Isso se materializa de forma especial no momento da feira de profissões, um dos trechos mais simbólicos do livro.

É ali que Rafa entra em contato com diferentes possibilidades de futuro e passa a imaginar-se como médico veterinário.

O sonho nasce do contato com o conhecimento, da experiência concreta e do estímulo recebido. Paloma Severo mostra, com sensibilidade, como o acesso à educação amplia horizontes e legitima o direito de sonhar, algo que nem sempre é garantido a todas as crianças.

Representatividade que fortalece a autoestima

Brincando em Comunidade cumpre um papel essencial ao oferecer representatividade real e respeitosa. Rafa é uma criança negra, periférica, criada em uma família não tradicional, cercada de mulheres. Essa vivência não é problematizada como falta, mas apresentada como estrutura de cuidado, afeto e força.

Para muitas crianças, ver uma realidade semelhante à sua retratada em um livro é um gesto poderoso. É o reconhecimento de que sua vida importa, de que seu território tem valor e de que sua história merece ser contada.

A própria autora afirma que Rafa carrega muito de sua infância, o que torna a narrativa ainda mais honesta e comprometida com a experiência vivida.

A literatura como ferramenta de pertencimento

Formada em Psicologia e com experiência em Psicologia Comunitária, Paloma Severo constrói o livro a partir de vivências reais, especialmente de seu contato com crianças em projetos comunitários.

Essa base se reflete na forma como a literatura é pensada como espaço de escuta, reflexão e construção coletiva.

O livro não apenas conta uma história: ele cria um espaço de pertencimento. Valoriza as pessoas que constroem diariamente a comunidade, dá visibilidade ao Bairro São Judas Tadeu e reforça a importância de reconhecer as potências presentes nesses territórios. A literatura, aqui, atua como ponte entre afeto, identidade e educação.

Uma leitura necessária e acolhedora

Brincando em Comunidade é um livro infantil que fala de coisas simples, mas fundamentais: brincar, aprender, conviver, sonhar. Sua força está na delicadeza com que apresenta o cotidiano e na responsabilidade com que trata temas como representatividade, educação e vida comunitária.

É uma leitura que dialoga tanto com crianças quanto com adultos; educadores, famílias e mediadores de leitura, ao lembrar que a infância é um território de formação profunda e que comunidades são feitas, acima de tudo, de pessoas que cuidam umas das outras.

Ao final, fica a sensação de que acompanhar Rafa é também revisitar nossas próprias memórias, reconhecer o valor do coletivo e reafirmar que crescer em comunidade é, antes de tudo, crescer com afeto.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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