“Adeus, fome!, de Ercilo Dias, é uma obra divertida e imprevisível sobre amizade, independência e aventuras extraordinárias nos anos 80
Adeus, fome!, de Ercilo Dias, começa com um objetivo bastante concreto: aos 19 anos, Laura quer conquistar sua independência e abrir uma lanchonete. Ambientada em 1984, na cidade fictícia de Panópolis, no estado do Rio de Janeiro, a história transforma esse empreendimento em ponto de partida para 21 episódios nos quais cotidiano, humor, fantasia, ficção científica e aventura convivem sem pedir licença.
Laura investe o dinheiro recebido como herança na formação da lanchonete Adeus, Fome!, instalada em um misterioso casarão do início do século. Ao seu lado está Xale, funcionário que se torna amigo e companheiro nas situações mais improváveis. A protagonista também conta com a presença de Paterson, seu tio bilionário, piloto aventureiro e proprietário da indústria aeroespacial TP, além de familiares, funcionários e clientes que ajudam a compor o movimentado universo de Panópolis.
Uma lanchonete onde quase tudo pode acontecer
A estrutura episódica é essencial para entender a proposta do livro. A lanchonete funciona como ponto de encontro e, frequentemente, como porta de entrada para o absurdo. Em vez de desenvolver uma única situação ao longo de toda a obra, Ercilo Dias coloca Laura e seus companheiros diante de conflitos diferentes, mantendo o estabelecimento como referência entre uma aventura e outra.
E a variedade é grande. Xale se envolve com uma seita formada por fanáticos interessados em controlar seus seguidores; um velho revela segredos sobre a indústria alimentícia e coloca Laura e Xale na mira de agentes de grandes corporações; um super-herói aparece no telhado da lanchonete enfrentando uma crise existencial; e um vidente prevê a morte de Laura, levando os personagens a tentarem modificar o futuro.
Esses acontecimentos mostram rapidamente que Panópolis não obedece às limitações de uma cidade comum. O livro aceita o fantástico como parte de seu cotidiano e encontra justamente nesse contraste boa parte de seu humor.
Do sobrenatural à ficção científica
Conforme os episódios avançam, Adeus, fome! amplia ainda mais suas possibilidades. Há um supervilão interessado em energia vital, um deus de brincadeiras e piadas, uma fada ligada às canções, possessão demoníaca, viagem no tempo, super-heróis, agentes secretos e alienígenas.
Em “O passado os espera”, por exemplo, uma televisão é usada pelo professor Charles como parte de uma máquina do tempo, levando Xale ao passado e obrigando Laura e o professor a irem atrás dele. Já “Beba Dhrama!” transforma os clientes da lanchonete em bêbados zumbis depois do consumo de uma cerveja misteriosa. É também nesse episódio que Ronald revela que sua esposa, Isabela, teria sido levada por alienígenas anos antes.
Essa liberdade permite que um episódio siga por caminhos completamente diferentes do anterior. O leitor pode sair de uma situação envolvendo futebol e rivalidade entre torcidas para outra dominada pela televisão, pelo sobrenatural ou por conspirações. O elemento de continuidade está menos no tipo de ameaça e mais nos personagens e em Panópolis.
Humor que também observa a sociedade
Por trás das situações exageradas, o material do livro aponta para questões sociais ligadas à época em que a narrativa acontece. O cenário de 1984 aparece por meio de músicas, televisão, rádio, videogames, carros, hábitos cotidianos, dificuldades econômicas, novidades tecnológicas e do ambiente político brasileiro. As Diretas Já também fazem parte desse pano de fundo.
Alguns episódios aproveitam o absurdo para abordar assuntos como manipulação, consumismo, poder e fanatismo. “Saboreie a felicidade!”, por exemplo, apresenta uma margarina capaz de deixar as pessoas excessivamente felizes, até Laura descobrir que o comportamento está relacionado a uma hipnose causada pelo marketing. Em “O show da lanchonete”, uma emissora de televisão instala um reality show no estabelecimento e passa a agir de maneira autoritária com Laura e seus funcionários.
A chegada de uma grande rede de fast-food a Panópolis também interfere diretamente no negócio da protagonista. Seu proprietário, Tômati Mc Dói, tenta comprar a lanchonete e, diante da recusa de Laura, recorre a diferentes golpes para conseguir o estabelecimento.
O humor, nesses casos, não elimina a crítica. É justamente pelo exagero que determinadas situações se tornam reconhecíveis.
Laura no centro do caos
Mesmo cercada por acontecimentos fantásticos, Laura permanece ligada a uma preocupação simples: construir algo que seja seu. A lanchonete representa sua tentativa de independência, mas também se transforma no espaço em que boa parte de suas relações e conflitos se desenvolve.
Sua vida pessoal continua avançando no meio dessa confusão. No episódio “Dia de Rock”, um festival movimenta Panópolis, Laura conhece um roqueiro chamado Rock e os dois se apaixonam, iniciando um namoro. Em outros momentos, seus vínculos familiares ganham espaço, como no reencontro com a irmã Eliane em “A fada das canções”.
Essa permanência do cotidiano ajuda a sustentar uma narrativa que poderia se dispersar diante de tantos elementos fantásticos. Laura ainda precisa lidar com trabalho, família, clientes e a administração de seu negócio, mesmo quando a próxima pessoa a entrar pela porta pode trazer consigo algo completamente inexplicável.
Uma Panópolis em permanente movimento
Adeus, fome! aposta na mistura de gêneros e na liberdade de sua estrutura episódica. Ercilo Dias reúne comédia, aventura, fantasia, ficção científica e referências aos anos 1980 para construir uma cidade em que uma situação banal pode rapidamente assumir proporções extraordinárias.
A obra pode funcionar especialmente para leitores que gostam de narrativas episódicas, acontecimentos inesperados e histórias que transitam entre o cotidiano e o fantástico sem abandonar o humor. Também há um componente de memória cultural para quem reconhece o Brasil dos anos 1980, enquanto leitores de outras gerações encontram nesse período o cenário particular das aventuras.
No centro de tudo está a Adeus, Fome!: uma lanchonete criada pelo desejo de independência de uma jovem de 19 anos e que acaba se tornando o lugar onde Panópolis revela seu lado mais estranho, caótico e divertido.
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