Claudia Vecchi-Annunciato: o despertar como autora e o seu talento literário

Desde criança, Claudia Vecchi-Annunciato guardou um brilho nos olhos para os livros. Sua primeira lembrança nítida é “A fada que tinha ideias”, de Fernanda Lopes de Almeida, uma faísca que acendeu um encantamento duradouro. Por décadas, porém, a escrita permaneceu como território alheio. Até que a vida, com seus abalos e revelações, lhe ofereceu um novo começo.

Nascida em São Caetano do Sul (SP), em 1972, Claudia é bióloga, mestre e doutora em Botânica, pedagoga e especialista em Gestão Escolar. Somam-se mais de 30 anos de atuação na Educação, especialmente na gestão de processos e projetos voltados ao ensino investigativo e criativo de Ciências e Biologia.

Casada e mãe de um filho, sempre transitou entre o rigor da pesquisa e o encantamento pelo mundo natural, terreno fértil que mais tarde alimentaria sua ficção.

Quando a vida muda o roteiro

Em 2018, chegou o diagnóstico de câncer de mama. Vieram a mastectomia unilateral, o esvaziamento axilar, 16 sessões de quimioterapia e 25 de radioterapia.

Entre lenços, consultas e esperas, Claudia manteve o bom humor, acolhida por profissionais de saúde, família e amigos. Hoje, segue em bloqueio hormonal até 2029. “Fiz de cada cicatriz um bordado”, diz.

Não romantiza a dor, mas a ressignifica: o câncer, para ela, foi “uma sentença de percepção do que é importante”, não um lembrete da morte.

Um conto no bloco de notas

O estalo criativo veio na volta de uma viagem a Belo Horizonte, depois do casamento da filha de uma amiga querida. No ônibus, abriu o bloco de notas e escreveu um conto.

Ao mostrá-lo, ouviu um coro de incentivos e buscou um curso de escrita criativa. Encontrou a Escola de Escritora, idealizada por Débora Porto, e, dali, iniciou uma jornada que uniria método e sensibilidade.

Claudia Vecchi-Annunciato com a escritora Débora Porto na Flip Paraty (2025)

Em 2023, publicou o conto “Parada de trem” na coletânea Um teto todo nosso – narrativas curtas, abrindo a porteira para o que viria.

A estreia solo e o amadurecimento

Também em 2023, lançou Desabrochar de uma miscelânea, seu primeiro livro solo. Ali, textos que espelham a vida em suas miudezas: encontros fortuitos, silêncios eloquentes, afetos que se tornam abrigo.

“Pequeno encontro não planejado” é um bom exemplo do seu toque: olhar atento, ternura sem açúcar, a coragem de se demorar nos detalhes.

No mesmo período, ao lado de Débora Porto, organizou Grimório de magia: contos de terror, mistério e fantasia, mostrando versatilidade e prazer em construir pontes entre autoras.

A sala de aula como romance e suas obras infantis

Em 2024, veio o primeiro romance, Próxima aula. Acompanhamos Joana, professora que atravessa turbulências pessoais e profissionais enquanto redescobre, na escola e em si, possibilidades de cura e reinvenção.

Claudia costura temas caros à sua trajetória; educação, cuidado, coragem, e transforma a rotina escolar em palco de afetos e escolhas. Não há slogans; há humanidade. É ficção que reconhece a fragilidade sem perder a esperança.

O público infantil encontrou em Claudia uma narradora curiosa e afetuosa. Em Coisas de se ver (2024), um balão de hélio percorre o Cerrado, admira suas belezas e se apaixona por um cacto em flor: metáfora leve sobre encanto, paisagem e pertencimento.

A princesa atrapalhada e o príncipe fedido (2024) brinca com cheiros, agradáveis e nem tanto, para provocar risadas em rodas de leitura. Em 2025, chega Fada de rodopio: uma fadinha travessa que movimenta o vento, mistura ciência e brincadeira e lembra que conhecimento também pode ser alegria.

Comunidade e pertencimento

Claudia tornou-se presença ativa em redes de escritoras. É membro da AJEB-SP (Associação de Jornalistas e Escritoras, núcleo São Paulo) e da Comunidade de Escritoras, além de madrinha do projeto Meninas na Escrita.

Lê com apetite autoras nacionais e internacionais; de Cora Coralina, herdou a delicadeza que encontra força no cotidiano. Esses espaços de troca; oficinas, coletâneas, leituras, alimentam sua escrita e multiplicam vozes ao redor.

No braço direito, uma tatuagem de laço rosa com asas de borboleta marca a travessia. É símbolo e lembrete: fragilidade e leveza podem morar no mesmo corpo. “A escrita salva e liberta”, repete.

Não se trata de negar a doença, mas de ultrapassá-la com sentido. Ao narrar o próprio percurso, Claudia oferece a outras pessoas em tratamento um horizonte possível: o câncer pode virar lente para o essencial, e combustível para criar.

Se a ciência lhe ensinou a nomear folhas, flores e ecossistemas, a literatura lhe deu um outro tipo de mapa: o das emoções. Sua obra guarda o rigor do olhar científico, atenção, método, curiosidade, e o devolve como delicadeza.

Em cada página, uma pedagogia afetiva: convidar o leitor a observar o mundo e, ao mesmo tempo, a si mesmo. No fundo, é o mesmo ofício em rota diversa: educar para a vida.

Claudia tinha 50 anos quando começou a publicar. Três anos depois, a intensidade do percurso revela uma autora que encontrou na palavra um jardim próprio.

Seus livros, para adultos e crianças, celebram a imaginação e a coragem de recomeçar. Entre cicatrizes bordadas e ventos de rodopio, ela prova que nunca é tarde para se reinventar. Às vezes, é no pós-tempestade que a vida se veste de cores mais vivas, e que a escrita, enfim, floresce.

Gostou do artigo? Aproveite para acessar o site de Claúdia Vecchi-Annunciato para mais informações. Siga a autora no Instagram e acompanhe todas as novidades sobre os últimos lançamentos!

Tagged:
Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts