Dentro: paisagens, é uma obra que revela a poesia escondida no cotidiano
Há livros que não pedem pressa. Livros que chegam devagar, quase no ritmo de uma respiração profunda, e nos chamam para dentro, para dentro do texto, dentro da memória, dentro de nós mesmos. Dentro: paisagens, de Marko Matičetov, é exatamente esse tipo de obra.
Um volume pequeno, mas capaz de abrir janelas enormes. Cada poema funciona como uma fresta por onde entra luz, ora suave, ora cortante, revelando tanto o cotidiano exterior quanto aquilo que se move silenciosamente em nosso interior.
Um livro sobre o que permanece e o que escapa
Desde o poema de abertura, “Dentro de mim há paisagens”, Marko estabelece o tom de sua escrita: íntima, reflexiva, quase confessional. Há um gesto muito humano ali, o desejo de revisitar memórias, de entender o que ainda pulsa dentro do que já passou.
Ele escreve:
“Que pena seria não me permitir chegar a mim mesmo.
Às minhas paisagens, que respirei para dentro de mim.”
Esse movimento de retorno, não ao passado, mas ao que o passado deixou — é um dos eixos mais bonitos da coletânea. Os poemas observam o que geralmente não vemos: o gesto pequeno, o detalhe esquecido, a chuva fina que pede para ser escutada.
Marko não tenta explicar a vida; ele tenta percebê-la. E, ao fazer isso, nos ensina a perceber também.
A poesia como pausa num mundo acelerado
Se existe um verbo que define este livro, talvez seja desacelerar. A cada página, somos convidados a suspender a urgência, como em “Você desgasta a si mesmo”, onde o poeta aconselha:
“Seja um pouco menos o homem dos seus pensamentos e palavras,
que cansam o próprio homem.”
A sensação é de que o livro nos devolve algo essencial: o direito de olhar com calma.
Olhar a chuva.
Olhar as plantas.
Olhar um dente perdido que vira poema.
Olhar a vida que se move em nós mesmo quando não queremos vê-la.
Marko transforma o cotidiano em poesia, não como um truque estético, mas como um ato de presença.
Entre Brasil e Eslovênia: paisagens que conversam
Um aspecto encantador da obra é como ela une geografias distintas, criando uma ponte afetiva entre o Brasil onde o autor vive e a Eslovênia, de onde veio.
As paisagens exteriores atravessam os poemas:
- a praia da Pipa;
- o morro do Slavnik;
- as salinas de Piran;
- as ruas do Rio de Janeiro;
- as montanhas de Maiorca;
- os laranjais de Sóller.
Mas nenhuma dessas paisagens é apenas cenário, são extensões do próprio eu. Em “A cada sete anos”, por exemplo, o autor revisita Itacaré como quem revisita versões antigas de si mesmo. Já em “Na biblioteca da praia”, a literatura torna-se uma experiência tão física quanto o sol na pele.
O mundo externo é sempre ponto de partida para uma reflexão interna, nunca o contrário.
O cotidiano visto pelo avesso
Os poemas têm a habilidade rara de transformar aquilo que, para muitos, é banal em algo comovente. Uma máquina de lavar que é vendida. Um sofá que permanece como coração da casa. Um cacto que cai sem aviso.
Quando Marko escreve sobre objetos domésticos, ele não fala sobre coisas, mas sobre o elo invisível que criamos com elas:
“Cada casa é um mundo à parte,
mesmo que seja igualzinha a outra.”
Há algo muito verdadeiro nisso: a casa não é só o espaço em que moramos, é o espaço que nos espelha. E ao reorganizá-la, reorganizamos também nossas camadas internas.
Memória, tempo e aquilo que não controlamos
Outro tema recorrente é o tempo, não o tempo cronológico, mas o tempo vivido. Em “Nenhum ano é distante”, Marko diz que cada ano é velho e novo ao mesmo tempo. Em outro poema, questiona o que determina a distância entre nós e o passado:
“Sou eu quem determina a distância entre mim e o meu passado
ou é o tempo que o determina, sem mim?”
Há uma filosofia suave em sua escrita, uma espécie de sabedoria cotidiana que não tenta responder tudo, mas acolhe as perguntas.
Amor, família e herança emocional
A parte final do livro é profundamente comovente. Os dez poemas escritos para o filho recém-nascido formam uma das seções mais belas da obra. Há ternura, humor, espanto e uma compreensão muito clara de que gerar uma vida é também gerar um novo tempo:
“Por tua causa, nós dois não estamos sozinhos. Por tua causa, não somos os últimos daqueles que vieram antes de nós.”
Essa dimensão familiar não aparece como sentimentalismo, mas como reconhecimento do vínculo humano — de onde viemos, do que carregamos, do que passamos adiante.
Uma poesia que acolhe e transforma
Dentro: paisagens é um livro pequeno, mas expansivo. Ele exige que o leitor leia devagar, respire entre as páginas, permita-se sentir.
É um livro que acolhe. Um livro que escuta. Um livro que devolve ao leitor a própria humanidade, essa que se perde tão facilmente na pressa do cotidiano.
Ao final, entendemos o convite do título: entrar nas paisagens internas é, também, encontrar novos modos de habitar o mundo exterior.
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