
Resenha: Fade Out | David Biriguy
Em um mundo onde tudo se acelera, se acumula e se dissolve com a mesma intensidade, a poesia surge como pausa, ruptura e, às vezes, como despedida.
É nesse intervalo inquietante que habita Fade Out, o quinto livro de poesia do pernambucano David Biriguy, finalista do VII Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura. A obra é uma espécie de adeus prolongado, um sussurro que resiste ao silêncio, um grito contido no fim da película da existência.
O título já nos prepara para o tom da obra: Fade Out — expressão que, no cinema, representa o momento em que a imagem se dissolve em preto, encerrando uma cena ou o próprio filme.
Aqui, o apagamento não é apenas visual; é emocional, simbólico e existencial. É também o último efeito da consciência antes do fim, o momento em que a realidade começa a escurecer.
Uma voz que se recusa ao silêncio
O livro é dividido em duas seções: “Das vozes que um dia pronunciei”, um longo poema em primeira pessoa, que pode ser lido como um único fluxo contínuo de pensamento, e “Do suicídio de quem não quer morrer”, uma coletânea de poemas que se debruçam sobre a metalinguagem, ou seja, poemas que falam da própria poesia, da escrita, do ofício de se manter existindo pela palavra.
Na primeira parte, Biriguy constrói uma voz que, mesmo fragmentada, se mantém coesa em sua angústia e intensidade. É uma escrita que oscila entre a confissão e o delírio, entre a lucidez de quem entende a efemeridade da vida e a tentativa desesperada de agarrar-se a algo que faça sentido.
O eu lírico caminha entre escombros do corpo, da linguagem, da memória, e tenta resgatar, entre ruínas, algum vestígio de permanência.
Poemas como resistência
A segunda parte é onde a poesia se volta para si mesma, em um gesto de autorreflexão que não é menos potente. Ao invés de buscar respostas, os poemas se entregam à dúvida, ao questionamento, à urgência de escrever mesmo quando tudo parece ruir. A escrita, nesse contexto, é não apenas um ato criativo, mas também um ato de sobrevivência.
Biriguy trata a palavra como um corpo em processo de decomposição, mas que, mesmo assim, insiste em existir. Cada poema é um fragmento dessa luta, ora irônico, ora melancólico, ora brutalmente sincero.
Há uma percepção nítida da decadência, mas também um desejo incontrolável de fazer valer, de deixar um rastro antes do fade out final.
Estética do fim e da permanência
Com imagens fortes e, por vezes, sombrias, o autor constrói um cenário de destruição não para chocar, mas para refletir.
A destruição, aqui, é também o espaço da criação, é entre os destroços da linguagem que nascem os poemas, é no esvaziamento do sentido que a poesia se reinventa.
A poesia de Fade Out é claramente existencialista, mas sem cair em fórmulas. Ela respira entre silêncios e pausas, como se cada verso fosse o último. E, nesse ritmo de fim iminente, há uma beleza dolorosa, como o silêncio após um concerto, ou a escuridão que sucede um grande filme.
Fade Out não é um livro fácil. Ele exige entrega. Ele pede que o leitor não apenas leia, mas escute as vozes entre os versos, perceba os vazios, abrace o desconforto.
É um livro que fala sobre a morte, mas também sobre a insistência da vida. Sobre a poesia como um último respiro antes do apagar completo da tela.
David Biriguy entrega uma obra que transcende o papel e dialoga com a finitude de forma intensa, corajosa e ao mesmo tempo delicada. Um livro sobre o fim e, por isso mesmo, sobre tudo o que ainda pode ser dito antes que a luz se apague. Uma leitura profunda, inquieta e inesquecível.
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