Histórias de Folgados e Fiéis, do autor Vasco Santos, é uma obra icônica. Retrata a fé nas relações humanas e sugere o esforço por construir um mundo melhor

Alguns livros chegam não apenas como narrativas, mas como propostas de reflexão para a transformação. Histórias de Folgados e Fiéis, de Vasco Santos, se inscreve nesse lugar: é um convite à percepção do egoísmo e da má-fé, para então ter consciência das relações humanas no grande desafio de sonhar de boa-fé, e agir, por um mundo melhor.

Composto por 91 crônicas curtas, o livro transita entre realidade, ficção, ensaio, poesias, fábulas e provocações filosóficas. Cada texto é um fragmento. Somando uns aos outros, constrói-se uma reflexão maior sobre como lidar com os conflitos do presente para abrir espaço a uma sociedade futura mais justa, solidária e feliz.

Da intenção nas primeiras páginas ao objetivo final

Logo nos três primeiros títulos, Santos deixa claro seu propósito. A obra nasce com a intenção de ajudar o leitor a pensar as próprias fidelidades para se livrar daquelas danosas, podendo então agir em direção ao próprio interesse objetivando uma vida melhor com um convívio mais harmônico.

Nas duas últimas crônicas, a narrativa se fecha ao mostrar a necessidade do esforço a cada dia para chegar ao mundo melhor: a mensagem central é a necessidade de cultivar a esperança como condição para superar egoísmos e más-fés destruidores da vida coletiva saudável. 

A última crônica, “Cultivar a boa-fé”, resume o eixo orientador do livro: a felicidade deve ser uma meta de referência, construída a partir do consenso, da cooperação e da disposição de ceder em nome da harmonia.

Entre esses dois pontos, o leitor percorre um arco de reflexões desde o diagnóstico do presente às possibilidades do futuro.

O mundo multilético: além da dialética

Um dos conceitos mais interessantes defendidos pelo autor consiste na revelação da existência da multiléctica. O mundo não deve ser pensado de forma puramente dialética de pressões entre contrários, mas do entrelaçamento de diversas dialéticas, e a interferência de três ou mais variáveis, em vez de apenas duas.

Ou seja, trata-se de compreender as múltiplas forças, visões e perspectivas se entrelaçando nos fenômenos da vida social.

A polarização entre “folgados” e “fiéis” aparece como recurso narrativo para tensionar visões de mundo. Os folgados são os aproveitadores imorais, mas por outro lado incluem aqueles sonhadores das boas realizações. Os fiéis, em contrapartida, são muitas vezes ludibriados, mas também trabalham para tornar reais os compromissos, valores e responsabilidades.

Entretanto, Vasco Santos vai além desta simples oposição, retratando a complexidade da convivência humana além das categorias binárias. Todos interagem, corrigem-se, aprendem uns com os outros numa constante troca de papeis.

A noção de “ceder” surge como princípio essencial. Quando as individualidades ainda insistem em impor-se, a obra mostra a verdadeira força existente em renunciar ao egoísmo para dar espaço ao entendimento coletivo.

As crônicas dialogam com o presente

Ao longo das crônicas, o autor toca em pontos sensíveis da nossa realidade contemporânea.

  • A exacerbação da racionalidade leva à criação de escritórios burocráticos manipuladores apenas de abstratas informações.
  • A manipulação irracional do dinheiro e das finanças fica afastada da economia na realidade do povo, agindo em favor dos mais fortes.
  • O uso distorcido da democracia, se transforma em espetáculo justificador da concentração de poder.
  • A manipulação deturpada da boa-fé alheia leva à exploração das fidelidades em benefício próprio.

Essas reflexões nunca se pretendem neutras. Pelo contrário, são críticas firmes à forma como a sociedade vem organizando sua vida política, econômica e ética num sentido distanciado da realização humana.

Entre realidade, ficção e fábula

O livro também surpreende ao alternar estilos.

Nem sempre a reflexão vem em tom ensaístico. Muitas vezes, o autor recorre a fábulas, poemas e até narrativas quase alegóricas para ilustrar os dilemas humanos.

Esse recurso cria uma leitura dinâmica: Enquanto induz o leitor a pensar, oferece respiros criativos, metáforas voltadas para ampliar a compreensão e imagens para permanecerem na memória. O texto flui, mesmo ao lidar com temas densos.

Boa-fé: chave para a convivência humana

O núcleo da obra está na defesa da boa-fé. Esta aqui não é ingenuidade, mas disposição em agir com honestidade, transparência e abertura para o coletivo. É a força capaz de neutralizar o egoísmo, o ressentimento e as violências pequenas e grandes do cotidiano.

A proposta é clara: não se constrói felicidade individual sem cooperação. E, além disso, não haverá transformação social possível, se cada um insistir apenas em buscar vantagem para si.

A crônica final, em especial, deixa um recado forte: precisamos de uma “anistia geral” das mágoas passadas. Abandonar desculpas antigas justificadoras de agressões,, para então punir novos ataques. E assumir o compromisso de cooperar.

Uma ética para o futuro

Apesar de lidar com problemas muito presentes, Histórias de Folgados e Fiéis é um livro voltado para o futuro. O autor se pergunta: é possível construir esse mundo melhor?

Sua resposta é realista e ao mesmo tempo esperançosa: não se chegará às boas soluções apenas através de lideranças individuais, mas do despertar coletivo das consciências. Não haverá modelo pronto, mas um caminho necessário de ser construído e depois constantemente administrado, corrigido, pensado e refeito.

A metáfora do “multilético” se impõe novamente: a vida não se organiza por fórmulas fixas, mas pela interação entre perspectivas diversas, todas guiadas pelo desejo de justiça e felicidade comum.

Um convite à reflexão e à ação

Histórias de Folgados e Fiéis é um livro singular. Não se trata de mera coletânea de crônicas, mas de uma proposta filosófica, poética e política. Vasco Santos constrói um mosaico combinando crítica social, metáforas criativas, análises econômicas e apelos éticos.

Após a leitura fica uma convocação: repensar nossos atos cotidianos, neutralizar o egoísmo e cultivar a boa-fé. Só assim, folgados e fiéis, metáforas de tantas divisões humanas, poderão cooperar para abrir espaço a um mundo mais justo e feliz.

É uma leitura para quem busca ir além do entretenimento. 

É para quem deseja pensar, refletir e, sobretudo, agir.

Adquira agora mesmo seu exemplar disponível na Amazon. Aproveite também para seguir o autor no Instagram e fique por dentro de todas as novidades.

Tagged:
Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts