Há escritores que descobrem cedo sua vocação. Outros, como Luan Gomes, a constroem aos poucos, um passo de cada vez, como quem ergue um castelo com paciência e curiosidade. Nascido e criado pela mãe na região da Grande Florianópolis, ele cresceu em uma família simples, sem o hábito da leitura ou dos estudos. Foi o primeiro a se formar em uma universidade e, mais do que isso, o primeiro a transformar as histórias que imaginava em palavras.

“Quando criança, eu criava fanfics na minha cabeça”, conta. “Assistia a filmes e desenhos e pensava: ‘e se…?’”. Essa inquietação, que parecia apenas distração infantil, se tornaria a semente de uma vida dedicada à escrita.

Da infância imaginativa ao leitor apaixonado

Durante a infância, os livros ainda não faziam parte de sua rotina. O menino que gostava de criar finais alternativos para desenhos e jogos não se via como leitor, até que a fantasia o encontrou. Foi na adolescência que ele conheceu os universos de O Hobbit, Harry Potter e Percy Jackson. “Ali nasceu o leitor em mim”, diz.

A partir daí, Luan mergulhou fundo. Passou da fantasia juvenil a Platão, explorando diferentes gêneros e estilos. A leitura, que antes era curiosidade, tornou-se impulso de vida. “Tornar-me leitor me deu uma carreira”, afirma. De fato, foi o gosto pelos estudos que o levou à universidade e depois, à formação em Tecnologia da Informação.

Quando o leitor vira escritor

A escrita, no entanto, chegou de forma tímida. Vieram contos, ideias dispersas, textos que ele mesmo descartava. Até que decidiu aplicar à literatura o que aprendera na faculdade: pesquisa e experimentação. “Em vez de simplesmente escrever, comecei a testar. Escrevi textos com tons diferentes, para ver o que mais me agradava.”

Dessa fase de experimentações nasceu seu primeiro romance. “Passei por bloqueios criativos e inseguranças, como todo iniciante”, relembra. “Mas a alegria de terminar minha primeira história compensou tudo.” Foi o momento em que entendeu que escrever seria mais do que um hobby; seria um modo de estar no mundo.

Entre suas maiores influências, Luan cita O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, Mistborn, de Brandon Sanderson, e A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr. Mas também carrega nas estantes nomes como Stephen King e Anne Rice, que o ajudaram a transitar entre o real e o sobrenatural, entre o humano e o monstruoso.

“Garras e Aço”: a fantasia e suas verdades

Seu segundo romance, Garras e Aço: A Promessa da Lua Vermelha, surgiu de um desafio pessoal. “Eu queria uma história de vampiros e lobisomens, mas não encontrava uma que reunisse tudo o que eu buscava”, explica. Depois de ler várias obras, decidiu escrever a sua própria.

O livro se passa em uma vila isolada, cercada por montanhas nevadas, que passa a ser atacada por vampiros. O problema é que a vila fica no território de um lobisomem. A narrativa acompanha dois protagonistas, Farkas, o lican, e Kai, o guerreiro humano, que precisam superar suas diferenças para enfrentar um inimigo comum.

O resultado foi um romance de fantasia cheio de ação, mas também de reflexão. “Normalmente abordo a dualidade, tema que permeia inclusive a mitologia da história”, explica Luan. “Quero que o leitor se pergunte quem é o verdadeiro monstro: o ser sobrenatural que luta para proteger os outros, ou o humano que destrói por interesse e poder.”

A crítica não tardou a reconhecer o vigor da obra. O editor e professor Thiago Cabello, que apresenta um podcast literário com o escritor Eduardo Spohr, escreveu:

“Prepare-se para mergulhar em uma fantasia de tirar o fôlego. A grande força deste romance está na intensidade das relações entre os personagens — mas não se engane: tudo o que faz uma boa fantasia brilhar está aqui, em dose generosa.”

Para Luan, esse reconhecimento foi um marco. “A aprovação do livro por profissionais experientes foi uma das maiores conquistas da minha carreira”, diz. “Mas o mais importante tem sido a recepção dos leitores. É para eles que escrevemos.”

O processo criativo e o olhar sobre o humano

A fantasia é o território natural de Luan Gomes, mas seu foco está nas pessoas. “Por mais que eu escreva fantasia, sempre me concentro nos personagens”, afirma. “Eles são o coração da história.” Em suas tramas, seres sobrenaturais carregam dramas muito humanos: dúvidas, perdas, escolhas morais. “Mesmo quando escrevo sobre criaturas fantásticas, coloco nelas uma pitada do que vivi.”

Suas ideias surgem espontaneamente, em grande quantidade. “Tenho dezenas de ideias desde criança. O dilema é escolher qual escrever agora”, conta. Por isso, sua rotina é simples: ele se senta e escreve, sem rituais nem metas rígidas. Trabalha o dia inteiro, estuda, cuida da casa, e escreve no tempo que sobra, de uma a três páginas por dia. “Se fico sem escrever, sinto falta. Dá saudade”.

Planejar é parte essencial do processo. Às vezes, esboça roteiros detalhados; outras, apenas pontos de virada e curvas emocionais. “Histórias com mais suspense pedem mais estrutura, mas gosto de deixar espaço para a descoberta”, explica. Essa combinação de método e intuição dá fluidez à sua prosa, e força às suas histórias.

Da fantasia sombria à nova luz

Depois da publicação de Garras e Aço, Luan voltou-se a um projeto mais leve, mas igualmente pessoal. Está reescrevendo o primeiro livro que escreveu, ainda inédito, agora com o olhar amadurecido da experiência. “Será uma fantasia, mas com tom mais infantojuvenil”, adianta. “É o gênero que me tornou leitor, e quero retribuir o que a leitura me deu.”

Ele revisita a própria origem com o mesmo cuidado de quem lapida uma lembrança preciosa. É um gesto simbólico: o garoto que um dia sonhava com mundos distantes agora os recria para outros jovens sonharem.

Entre mundos e espelhos

Em suas histórias, Luan Gomes constrói universos onde o fantástico e o humano se confundem. Vampiros, lobisomens e guerreiros dividem o palco com sentimentos como medo, coragem e compaixão. É dessa mistura que nasce o encanto de sua literatura.

“Escrever, para mim, é uma forma de conversar com o leitor”, diz. “A fantasia é o cenário, mas o que me interessa são as pessoas; mesmo que elas tenham presas ou garras.”

Entre mundos de neve, batalhas e luas vermelhas, Luan segue construindo pontes entre o real e o imaginário. E provando, com cada nova história, que a fantasia pode ser o espelho mais fiel da humanidade. Siga o autor no Instagram e fique por dentro de todas as novidades.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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