Marília Andreä: a escritora paranaense que fez da diáspora o território onde sua voz encontrou o mundo

Há trajetórias que parecem traçadas pela própria geografia da vida: curvas, deslocamentos, retornos, fronteiras cruzadas e uma voz que, aos poucos, aprende a se reconhecer no caminho. A história de Marília Carneiro Andreä, escritora nascida em Jaguariaíva/PR e hoje radicada em Colônia, na Alemanha, é uma dessas narrativas em que o movimento não é apenas físico: é emocional, cultural e profundamente literário.

Aos 55 anos, Marília reúne em sua escrita a força de quem partiu, a saudade de quem observa o país à distância e a sensibilidade de quem transforma vivências em literatura. Seu percurso, que começou na contabilidade e passou pela hotelaria, encontrou no ato de escrever uma forma de retornar a si mesma, mesmo vivendo longe da terra natal.

Das raízes paranaenses às primeiras rotas pelo mundo

Nascida em 11 de março de 1969, em Jaguariaíva, pequena cidade do interior do Paraná, Marília cresceu entre a simplicidade do cotidiano e o desejo silencioso de conhecer o mundo. Depois de formada em contabilidade, mudou-se para Curitiba, onde se especializou em hotelaria. Era o primeiro passo de uma trajetória que, sem saber, aproximava-a da vida internacional que viria a construir.

A virada para o século XXI marcou também a virada de sua vida: Marília deixou o Brasil para viver e trabalhar na Alemanha. Um deslocamento que mudou não apenas o país onde moraria, mas também a forma como passaria a enxergar suas próprias raízes.

Entre aeroportos, culturas distintas e novas línguas, cresceu também a vontade de escrever, uma semente que sempre existiu, mas que encontrou terreno fértil justamente quando o mundo se abriu diante dela.

A literatura como território de pertencimento

Foi fora do Brasil que Marília amadureceu enquanto escritora. Talvez porque a distância ofereça um novo tipo de olhar, mais afeito ao detalhe, às memórias que ganham nitidez quando estamos longe, aos afetos que precisam ser revisitados pela escrita.

A paixão por viagens e leitura transformou-se, naturalmente, em histórias. E essas histórias começaram a encontrar lugar em antologias lusófonas publicadas na Europa, marcando seus primeiros passos literários:

  • Poetas Lusófonos na Diáspora — Volumes II, III e IV (2018, 2020, 2022 — Alemanha)

Era o início de uma voz que conciliava brasilidade, olhar estrangeiro e experiências pluriculturais.

Com o tempo, vieram os livros autorais, alguns escritos diretamente em alemão, outros em português, todos atravessados por temas que lhe são caros: deslocamento, memória, reconstrução, relações humanas e a delicada fronteira entre o familiar e o desconhecido.

Da ficção ao diálogo com o Brasil: obras que constroem pontes

Em 2019, publicou Dakota e a Vila do Sol e A Casa da Esquina, ambos na Alemanha. Um ano depois, lançou Tod im Sonnendorf. Em 2021, A Casa da Esquina chegou ao Brasil, permitindo que leitores brasileiros tivessem acesso à história originalmente publicada no exterior.

Marília também participou de obras de caráter coletivo e político, como:

  • Elas: Mulheres Escrevendo Política para o Brasil (2023)
  • I Coletânea de Contos e Histórias — Autores da Diáspora (2023 — Luxemburgo)

E, ainda no mesmo ano, publicou o sensível e impactante Regresso sem Saudade, livro que dialoga com superação, memória e as marcas do passado.

Sua literatura transita entre a ficção, o resgate afetivo e o diálogo crítico sobre o Brasil contemporâneo. Sem jamais abandonar o fio íntimo que costura todas as suas obras: a busca por compreender quem somos quando habitamos mais de um lugar.

Escrever longe de casa: a diáspora como laboratório emocional

Marília costuma dizer que sua escrita nasceu da interseção entre movimento e silêncio. Ao viver na Alemanha, encontrou não apenas um novo país, mas um espaço interno para olhar para si. Escrever tornou-se uma forma de organizar memórias, traduzir experiências e criar narrativas que atravessam fronteiras.

Essa percepção também aparece no modo como constrói personagens: muitas vezes deslocados, inquietos, em trânsito entre mundos externos e internos. Há, em suas histórias, uma delicada dimensão humana que só quem viveu o estranhamento, e a beleza, do estrangeiro é capaz de narrar.

Família, afetos e a vida em Colônia

Hoje, Marília vive em Colônia, ao lado do marido, Axel André, e dos três filhos Thiago, Thamara e Elijah. A família é sua principal âncora emocional.

Filhos bilíngues, vivências híbridas e uma casa que abriga culturas diversas fazem parte do universo que alimenta sua escrita.

Nas entrelinhas de suas obras, percebe-se o quanto a maternidade e a vida familiar se tornaram pontos de equilíbrio em sua trajetória, e como o afeto atravessa a escritora, a mulher e a imigrante.

O legado literário de uma autora da diáspora

Os livros de Marília Andreä desenham rotas que conectam Brasil e Europa, raízes e deslocamentos, passado e presente. Sua escrita pertence a um movimento crescente de autores da diáspora lusófona que, ao viverem fora do país, ampliam as possibilidades da literatura brasileira no mundo.

Sua voz nasce de dois lugares ao mesmo tempo: do Paraná onde cresceu e da Alemanha onde se reinventa. E é justamente dessa confluência que surge a força de sua obra.

Marília escreve para quem parte, para quem fica, para quem sonha e para quem busca no papel a possibilidade de revisitar a própria história. Suas narrativas nos lembram que, mesmo longe de casa, levamos conosco tudo o que fomos, e tudo o que ainda podemos ser.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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