Marko Matičetov: o poeta esloveno que combina precisão, travessia e continuidade da vida

Ler a poesia de Marko Matičetov é aceitar um convite raro: o de entrar em uma poesia que não se sustenta no excesso, mas na precisão. Poeta esloveno nascido em 1984, Marko escreve desde os 18 anos e construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma obra que aposta na exatidão da palavra como forma de emoção.

Seus versos caminham com rigor quase matemático, mas nunca perdem a delicadeza humana, talvez porque, para ele, a poesia seja menos um exercício estético e mais uma necessidade vital.

Ao longo de sua trajetória, publicou seis livros de poesia. Dois deles, Boa noite do meu quarto, Brasil e Dentro: paisagens, ganharam tradução para o português, ampliando o diálogo íntimo que o autor mantém com o Brasil e com a língua portuguesa.

O Brasil como paisagem interior

O Brasil ocupa um lugar singular na vida e na escrita de Marko Matičetov. Desde 2007, o poeta visita o país com frequência, já foram quinze viagens, e foi a partir dessas experiências que aprendeu português. O desejo de viver no Brasil chegou a existir de forma concreta, mas acabou esbarrando nas dificuldades burocráticas para obtenção de visto de trabalho.

Ainda assim, o país se transformou em território afetivo e poético. Mais do que cenário, o Brasil aparece como paisagem interior, espaço simbólico que atravessa sua obra.

A relação com a língua portuguesa não é instrumental, mas emocional: Marko escreve a partir de uma escuta sensível, tratando o idioma como extensão da própria experiência de vida.

Biblioteca, silêncio e tempo de escrever

Na Eslovênia, Marko trabalha em biblioteca pública e, desde 2022, é diretor da biblioteca da cidade de Sežana. Seu cotidiano é atravessado por livros, leituras, encontros e mais de cem eventos literários e culturais organizados por ano. Paradoxalmente, essa imersão constante na literatura não o obriga a escrever o tempo todo.

Marko afirma com clareza: é poeta, não romancista. Escreve quando há algo que precisa ser escrito. Há períodos de intensa produção e outros de completo silêncio; ambos igualmente legítimos. A poesia, para ele, não se submete a rotina produtivista, mas a um estado de necessidade.

Dentro: paisagens como romance em versos

Dentro: paisagens nasce de forma espontânea, sem um projeto narrativo rígido. O livro começa com descrições de paisagens acumuladas ao longo de viagens e experiências, imagens que o poeta carrega consigo. Aos poucos, porém, a escrita encontra um eixo mais íntimo e existencial.

O encontro com a companheira, a construção de um lar e a reflexão sobre a possibilidade de ter um filho deslocam o centro do livro. A poesia passa a orbitar o espaço doméstico, a intimidade e o tempo compartilhado. O nascimento do filho, Mateus, marca o ponto de inflexão definitivo da obra.

Quando a voz muda de lugar

A parte final de Dentro: paisagens é dedicada ao filho. As paisagens deixam de existir apenas dentro do poeta e passam a habitar a interioridade da criança. O último ciclo de poemas é escrito em primeira pessoa, como se fosse o próprio filho quem falasse.

Esse gesto formal não é mero experimento: ele encerra a lógica do livro. A poesia deixa de ser apenas expressão individual e se transforma em continuidade.

O livro pode ser lido como um romance em versos que acompanha o deslocamento da vida: do eu para o outro, da memória para o futuro.

Precisão, linguagem e tradução

Marko Matičetov define seu estilo com clareza: precisão extrema e economia poética. Ele evita excessos, descrições infladas e adjetivação gratuita.

Escreve com verbos e substantivos, utilizando palavras da linguagem falada para criar efeitos poéticos com poucas ferramentas.

Essa escolha estética torna sua escrita altamente traduzível. Dentro: paisagens já foi traduzido para o português, italiano, inglês, espanhol, sérvio e polonês, com editoras confirmadas para todas as versões.

Nem todos os seus livros tiveram esse destino, alguns eram intraduzíveis por particularidades linguísticas, mas este nasceu aberto ao trânsito entre línguas.

Influências e afinidades literárias

Entre os autores de língua portuguesa, Fernando Pessoa é uma referência fundamental, sobretudo pela precisão formal e pelo rigor estrutural.

Do Brasil, Marko destaca Ferreira Gullar, a quem visitou no Rio de Janeiro em 2013, levando um poema escrito em homenagem à sua obra, texto que integra Boa noite do meu quarto, Brasil.

Manoel de Barros também aparece como influência, assim como Eugénio de Andrade, de Portugal. São diálogos que não se traduzem em imitação, mas em afinidades silenciosas, absorvidas com discrição.

Uma poesia que permanece

Atualmente, Marko não escreve novos poemas. Está dedicado às traduções e à circulação internacional de sua obra, além de suas funções como diretor de biblioteca. Há, inclusive, uma sensação curiosa que ele compartilha: às vezes acredita que bastaria ter escrito apenas Dentro: paisagens.

Não como renúncia, mas como reconhecimento de completude. O livro termina com uma frase simples e poderosa “tempo é que não falta”, sintetizando sua mensagem central: a vida continua, mesmo quando termina. Continua nos filhos, nos gestos, no que deixamos ao mundo.

Marko Matičetov escreve uma poesia que permanece. Uma poesia precisa, silenciosa e profundamente sensível, que confia no tempo e na continuidade da vida como sua maior força.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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