Nani Paiva: a escritora que transformou a dor em leveza e fez da infância seu refúgio literário
Desde os dez meses de idade, a vida de Nani Paiva foi marcada por um acidente que poderia tê-la silenciado para sempre, mas foi justamente dele que nasceu uma voz poderosa, terna e resiliente.
Escritora, tradutora, pós-graduada em Língua Inglesa e apaixonada pela literatura infantil, Nani escreve para existir, e existe para inspirar. “A escrita é a forma que encontrei de ser livre”, costuma dizer.
Hoje, entre prêmios literários, publicações e projetos em andamento, ela vive o presente com o olhar de quem já enfrentou dores profundas, mas escolheu a ternura como resposta. “A escrita me traz leveza. É o universo em que gosto de viver”, resume.
Da infância interrompida ao recomeço
A história de Nani começa com uma tragédia. Quando tinha apenas dez meses, foi atropelada por uma Caravan, um carro de ferro pesado que passou duas vezes sobre ela e o andador em que estava.
O impacto causou uma série de ferimentos graves: fratura exposta no braço, traumatismo craniano, costelas quebradas e uma lesão medular irreversível. O braço foi reimplantado com sucesso, e ela gosta de lembrar que “imaginem se o médico soubesse que, décadas depois, eu costuraria, escreveria e seria uma tia muito legal!”.
Desde então, Nani vive com paraplegia. Mas o que poderia ter sido um limite tornou-se uma força criadora. Em seu corpo e em sua voz coexistem a fragilidade e a potência: “Sou acadeirantada, mas não gosto de rótulos. Gosto de inventar termos novos quando os que existem não me bastam. Acho que é isso que o escritor faz: cria palavras quando o mundo não dá conta de explicá-lo.”
A difícil travessia pela escola
Ser uma estudante com deficiência nos anos 1990 não foi fácil. Nani enfrentou negligência, falta de estrutura e preconceito. No primeiro dia de aula, foi deixada sozinha no pátio da escola estadual, esquecida pela diretora que prometera levá-la à sala. Foi uma funcionária da limpeza quem percebeu a cena e ligou para seus pais. “A moça da faxina me salvou”, lembra.
Depois de muita luta, seus pais encontraram uma escola mais acolhedora, onde os professores a incluíam nas atividades e gincanas. Mas o sistema público logo a empurrou de volta à instituição anterior, sem acessibilidade. “Minha mãe, que já tinha três problemas na coluna, precisou se aposentar mais cedo para subir comigo no colo até o segundo andar todos os dias”, conta.
A inclusão real veio apenas quando entrou no Colégio Achilles, já na quinta série. Lá, teve professores atenciosos e funcionários que cuidavam dela com carinho. “No Achilles, eu era vista. Isso fez toda a diferença.” Mesmo assim, o isolamento social persistia: não tinha amigos nem parceiros para trabalhos em grupo. “Vivi o ensino à distância antes da internet. Minha mãe ia de casa em casa pegar os cadernos emprestados para tirar xerox.”
As experiências marcaram profundamente sua visão sobre educação. Hoje, Nani fala com propriedade sobre o que realmente significa incluir: “A verdadeira inclusão é entender que cada pessoa tem necessidades específicas e que respeitá-las não é favor, é natural. Colocar todos os alunos com deficiência no mesmo grupo, sem olhar individualmente, é só uma outra forma de capacitismo.”
O nascimento da escritora
A escrita entrou em sua vida como uma faísca, aos oito anos, quando uma professora elogiou suas frases e pediu aos alunos que escrevessem algo para uma exposição escolar. Nani escreveu seu primeiro livrinho, e o mostrou orgulhosa para a família. As primas e a irmã adoraram. “Foi ali que entendi o poder das palavras”, recorda.
Durante a adolescência, o hábito de escrever foi interrompido “passei a achar tudo bobo”, mas retornou na juventude, primeiro como tentativa de autobiografia, depois como ficção. A retomada definitiva veio com o nascimento da sobrinha, que reacendeu sua imaginação. “Foi por ela que voltei a escrever. Ela me devolveu o gás que a vida adulta tinha levado.”

Hoje, Nani é autora de livros infantis e infantojuvenis que dialogam com o imaginário, o afeto e o aprendizado.
Obras publicadas
- Quando a Nani Nana – Reúne 16 historinhas para a hora de dormir, cheias de interação e fantasia.
- A Chave Mágica – Aventura espacial entre tia e sobrinha, explorando as características dos planetas do sistema solar.
- A Chave Mágica 2 – Continuação da saga, agora no fundo do oceano, misturando ciência, imaginação e vínculo familiar.
- Um Dia na Piscina e O Mundo que Dá Voltas – Histórias sobre descobertas e superação na infância.
- Participação em O Livro dos Inícios – Contos Completos, antologia que reúne novas vozes da literatura contemporânea.
Seus livros são adotados por professores e usados em sala de aula. Uma criança, inclusive, foi alfabetizada com A Chave Mágica. “Essas são as conquistas que valem mais do que qualquer prêmio”, diz Nani.
Ainda assim, reconhecimentos não faltam: vencedora do Prêmio Carolina Maria de Jesus – Literatura Produzida por Mulheres (Ministério da Cultura, 2023) e do Concurso Nacional Poloprinter de Literatura (2024), ela se tornou uma das vozes mais promissoras da literatura infantil independente.
A escritora e o propósito
Recentemente, Nani descobriu ter autismo nível 1 (leve) e TDAH, condições que a ajudaram a compreender melhor suas próprias formas de perceber o mundo. “Sempre me senti diferente, mas foi libertador entender o porquê. A escrita é onde tudo faz sentido.”
Ela também fala, com franqueza, sobre o que chama de “síndrome do bloqueio do desenvolvimento emocional”, uma experiência que descreve como um obstáculo interno de amadurecimento afetivo, tema que deseja explorar futuramente em sua autobiografia.

Escrever, para Nani, é um gesto de cura e partilha. “Acredito que a escrita seja meu propósito. É o modo que encontrei de viver e devolver ao mundo tudo o que aprendi, inclusive com a dor.”
Entre sonhos e realidade
Com voz doce e firme, Nani sonha em construir uma casa adaptada, em uma cidade pequena, onde possa viver com autonomia. “Quero um lugar acessível e tranquilo, onde eu possa continuar escrevendo e costurando minhas histórias.”
E se a vida lhe impôs limites físicos, ela aprendeu a transformá-los em asas. “Não posso andar, mas posso fazer o mundo caminhar dentro das minhas palavras.”
Antes de encerrar qualquer conversa, Nani cita sua frase favorita, de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas:
“Um por todos e todos por um.”
E completa com a sabedoria de quem fez da inclusão uma forma de amor:
“A vida é isso, estarmos interligados. Todos aprendemos e evoluímos juntos quando nos acolhemos e nos respeitamos.”
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