Ricardo Pegorini: entre mitos, memórias e melodias, o escritor que faz da palavra um território de permanência

Em Porto Alegre, cidade onde os ventos do sul parecem sempre anunciar mudanças, vive Ricardo Pegorini (1961); escritor, músico e servidor público, cuja obra transita entre o lirismo poético e o rigor da narrativa. Dono de uma escrita marcada pela densidade simbólica e pela observação atenta do cotidiano, ele construiu uma trajetória sólida e sensível, unindo arte, mitologia e humanidade.

Pegorini é daqueles autores que fazem da literatura uma forma de decifrar o tempo. Em “Contos do Tempo e da Terra, do Fogo e do Mar” (Olho de Pan, 2025), seu livro mais recente, o autor entrelaça mitologia, memória e natureza para revelar a tensão entre o efêmero e o essencial, um fio condutor que atravessa toda a sua obra.

“Procuro combinar lirismo e precisão narrativa, com forte presença simbólica e imagética”, explica. “O tempo, os elementos da natureza e o conflito entre razão e sensibilidade estão sempre presentes. Cada conto, poema ou fragmento tenta traduzir essa tensão entre o instante e o que permanece.”

Raízes e vocação literária

Nascido em Porto Alegre, Ricardo Pegorini cresceu entre livros, música e histórias familiares que ecoavam as lembranças dos imigrantes italianos. Essa herança de oralidade e imaginação seria determinante para a construção de seu universo literário.

Premiado no 3º Concurso Mário Quintana (2007) e finalista dos prêmios Anna Maria Martins (2024) e Brasiliê (2025), Pegorini foi também presença marcante em diversas antologias, como A Semente e o Verbo e Terra (OFF FLIP 2025), consolidando-se como uma das vozes mais consistentes da literatura gaúcha contemporânea.

Paralelamente à escrita, o autor atua na Escola de Magistrados e Servidores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre, desenvolvendo projetos de cultura e formação.

Essa convivência entre o mundo das leis e o da imaginação, segundo ele, enriquece sua escrita: “No trabalho, lido com a racionalidade. Na literatura, busco o que escapa a ela; aquilo que não pode ser dito em números ou relatórios.”

A escuta do mundo como método

O processo criativo de Pegorini nasce da observação demorada, um exercício de escuta e silêncio. “Parto dos gestos simples e das paisagens interiores”, conta. “Meus textos vêm do ruído da cidade, do silêncio dos campos e das vozes que ecoam da memória familiar.”

Essa relação com o sensível o leva a uma escrita que se aproxima da música. Não à toa, ele também é músico e letrista, o que imprime às suas narrativas uma cadência particular. “Pesquisa, intuição e ritmo são fundamentais. Escrever é como compor: é preciso saber quando o som deve cessar para que o silêncio fale.”

Sua literatura carrega o mesmo equilíbrio entre estrutura e emoção que se percebe numa boa canção. Há nele uma preocupação constante com o ritmo interno das frases, com a sonoridade das palavras e com a respiração do texto.

O universo simbólico de Contos do Tempo e da Terra, do Fogo e do Mar

Lançado em 2025, Contos do Tempo e da Terra, do Fogo e do Mar é mais do que uma coletânea de contos, é um ciclo narrativo em torno das forças primordiais da existência. Terra, fogo, água e tempo se tornam metáforas da própria condição humana, em histórias que oscilam entre o mítico e o cotidiano.

Pegorini recria arquétipos ancestrais, o herói, o viajante, o sonhador, o exilado, em cenários que lembram tanto os pampas quanto os desertos interiores de cada leitor. “Os elementos da natureza são espelhos. Cada um deles revela algo sobre nós. A terra fala de pertencimento, o fogo da paixão, o mar da travessia e o tempo da inevitabilidade.”

O livro também reflete sua busca por uma linguagem que una a simplicidade do gesto e a profundidade da reflexão. “Procuro escrever de modo acessível, mas sem abrir mão da densidade. A boa literatura precisa emocionar e fazer pensar.”

Entre a épica e a genealogia

Após o lançamento de Contos do Tempo e da Terra, do Fogo e do Mar, Ricardo Pegorini mergulhou em um novo e ambicioso projeto: a Trilogia Pegorini, uma série de romances históricos inspirada em sua pesquisa genealógica sobre os imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no século XIX.

O primeiro volume, em desenvolvimento, seguirá a estrutura da Ilíada, narrando a partida dos colonos da Lombardia e o confronto entre honra, perda e destino. O segundo, inspirado na Odisseia, abordará a travessia oceânica dos desbravadores. Já o terceiro, com ecos da Eneida, mostrará o assentamento dos colonos no sul do país, em meio à reconstrução de identidades.

“Quero unir a história familiar com o mito e a ficção. O que me interessa é o gesto épico dessas pessoas comuns, o ato de deixar tudo para trás e buscar o desconhecido. A literatura, para mim, é também uma forma de memória.”

A música das palavras

Além da escrita, Pegorini mantém viva sua paixão pela música. Toca em uma banda de rock, onde, segundo ele, encontra outro modo de narrar.

“A música e a literatura têm o mesmo objetivo: transformar o invisível em presença. Escrever é compor com palavras.”

Essa conexão entre som e sentido atravessa toda a sua produção. Há ritmo nos parágrafos, melodia nas descrições e pausas que ecoam como compassos.

Talvez por isso, seus textos tragam uma sensação quase sinestésica; é possível “ouvir” o vento, o mar, o tempo que passa.

Um autor entre o mito e o instante

Entre a rotina no serviço público e a criação artística, Ricardo Pegorini mantém a serenidade de quem entende que o tempo é o verdadeiro protagonista da vida. “A arte é uma forma de autoconhecimento. Escrever é transformar o instante em permanência.”

Com uma voz literária que une o épico e o íntimo, o simbólico e o cotidiano, ele se consolida como um autor de fronteira: entre a razão e o sentimento, o passado e o agora.

“Talvez escrever seja isso”, conclui. “Aceitar que nada é definitivo, mas que algumas palavras podem durar mais do que nós.”

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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