Vasco Santos: o pensador transformando memória e música em literatura

Em cada lembrança guardada por Vasco Santos há uma linha de tempo entrelaçando política, música, afetos e poesias. Filho de um homem público, testemunha de exílios e reencontros, ele viveu os bastidores de um Brasil em transformação, e agora, aos 73 anos, dedica-se a expressar essas experiências em palavra escrita: “Sou quase um idealista”, costuma dizer, com a serenidade de quem carrega uma vida inteira de histórias e a urgência de registrá-las.

“Sempre valorizei o comunitário. Em 1984, decidi tornar-me escritor para me manifestar nas colaborações por um mundo melhor”.

Nascido e criado em São Paulo, com esporádicas passagens pelo Rio de Janeiro, Brasília e Santiago do Chile, Vasco teve uma infância marcada pelo deslocamento e pela observação. Filho de um político comprometido com a justiça social na linha católica, cresceu entre debates sobre o país, com mudanças constantes de cidade e escola; mais de vinte e cinco endereços antes dos vinte anos. 

Vasco veio ao mundo em uma família capaz de lhe dar uma visão ampla do país. Seu avô materno participou da fundação do Bradesco, ao lado do sogro e de um cunhado, um legado de estabilidade financeira o qual, porém, jamais se traduziu em privilégio moral. “Hoje não somos banqueiros, nem temos qualquer ligação com o banco”, costuma dizer lembrando sua realidade: embora viesse de um berço confortável, aprendeu desde cedo o valor da responsabilidade e do trabalho.

Do lado paterno, a história foi moldada pela fé e pelo senso de justiça. A família de Araxá (MG) veio para São Paulo em busca de oportunidades. Seu pai formou-se em Direito no Largo São Francisco, foi aluno brilhante, ganhador de prêmios e amigo de muitos colegas afinal transformados em figuras marcantes na sociedade. 

Em 1953, Paulo de Tarso ingressou na política como colaborador na campanha de Jânio Quadros para prefeito de São Paulo. Depois foi vereador e deputado federal, mantendo uma relação política de confiança com o futuro presidente até ser nomeado prefeito de Brasília, em 1961, após sua posse como Presidente da República.

Uma das fotos de seu acervo pessoal mostra o pequeno Vasco ao lado de outras crianças, filhos de deputados, sob o olhar do ministro Nelson Hungria, do STF. “O menino pequeno atrás de mim é o Rodrigo Rollemberg”, conta com naturalidade, lembrando: aquele garoto viria a ser governador do Distrito Federal décadas depois. 

Entre as lembranças dessa época, uma foto chama atenção no acervo de Vasco: o encontro histórico com o revolucionário Che Guevara, em Brasília, em 1961.

A imagem, registrada durante uma visita oficial, mostra o pequeno Vasco ao lado do pai e de outras figuras políticas.

Em 1962, Paulo de Tarso foi reeleito deputado federal por São Paulo. De volta a Brasília, durante os candentes debates de 1963 no Parlamento pelas chamadas “reformas de base”, foi nomeado Ministro da Educação pelo Presidente João Goulart.

Em 1964, o golpe militar mudou o rumo de tudo. O pai de Vasco defendia ideias de justiça social inspiradas na encíclica Mater et Magistra, de João XXIII. Foi cassado logo na primeira lista, no dia 9 de abril. Passou por três prisões, mas sempre foi tratado com respeito; era considerado um adversário digno, de conduta incorruptível. “Meu pai exigiu e recebeu o respeito ao perdedor”, resume. “Não havia ódio contra ele. Foi respeitado até por quem discordava de suas ideias”, recorda Vasco.

Sem possibilidade de sustento num governo autoritário, o pai recorreu ao amigo Eduardo Frei, então presidente do Chile, e obteve asilo político com despesas custeadas pelo governo chileno, relata Vasco, em tom de gratidão.

Do exílio ao reencontro

Em 1965, a política levou a família ao exílio no Chile. Uma das imagens mais simbólicas desse período mostra o visto de entrada no país, concedido como “residente com asilo político”, um gesto de respeito do governo de Eduardo Frei ao pai de Vasco. 

O Chile da década de 1960 foi um território fértil para o pensamento democrático. Vasco estudou em uma escola católica comprometida com a justiça social, convivendo com professores e colegas com os quais refletia sobre direitos, liberdade e responsabilidade. “Ali, sem censura, aprendi o valor da convivência na educação”, relembra.

O convívio próximo com o educador Paulo Freire, e o ambiente de efervescência intelectual entre exilados brasileiros, moldaram sua consciência política. “Mas, nunca me enquadrei em disciplina partidária. Aprendi o valor do pensamento próprio: isto exige coragem”, diz.

Vasco com seu avô Cunha, o educador Paulo Freire e o Filósofo José Luiz Fiori (Chile, 1967)

Lá, Vasco acompanhou o embate entre a democracia cristã de Eduardo Frei e a ascensão esquerdista de Salvador Allende, cuja vitória presenciou antes de retornar ao Brasil. “Durante seis anos, vi de perto um país debatendo seus rumos com intensidade, sem medo da palavra”, conta.

Ainda vivendo no Chile, o futuro escritor descobriu o poder da música vocal e do canto coral. Esta paixão o acompanha até hoje. “Sempre me interessei por música vocal. E desde os 20 anos, sou e me declaro um cantor de coral”, afirma, com a voz de quem encontra harmonia no coletivo.

Quando a família regressou ao Brasil, em novembro de 1970, o país vivia um dos períodos mais duros da repressão. Ainda sob o peso da ditadura, Vasco reencontrou a esperança na música e, logo depois, na militância estudantil. Trazia um olhar ampliado, e um senso de responsabilidade unindo o aprendizado chileno à realidade brasileira. “O Chile me ensinou a procurar a justiça social; o Brasil me mostrou o quanto precisamos lutar por ela com serenidade”, diz.

Esse espírito o acompanhou nas décadas seguintes: um cidadão atento, acreditando na força da convivência e na educação como caminho de transformação.

Seguindo esta linha, Vasco iniciou sua vida como coralista no CORALUSP (Coral da Universidade de São Paulo) em maio de 1972. E desde então nunca mais deixou de conviver dentro desse meio.

A juventude e o compromisso com o ideal

Em 1976, ingressou na PUC-SP para estudar Direito. Foi um período intenso, de aprendizado, mobilização e resistência. Ele esteve presente em momentos históricos, como o ato público na Faculdade de Medicina, em 1977, e a invasão da PUC no mesmo ano. Em uma das fotos preservadas, aparece jovem, cabeludo e de bigode, estampando a primeira página do Jornal da Tarde. “A flecha me aponta”, brinca, lembrando o vigor daqueles dias.

Com a redemocratização nos anos 1980, Vasco passou a trabalhar em uma grande empresa estatal e viu de perto as contradições do poder. “Achava-me ingênuo por pedir do serviço público o cumprimento de sua função de bem servir à comunidade”, confessa. O choque entre ideal e realidade política o levou a refletir sobre aquilo chamado de “guerra a qualquer custo”. Nesse clima, nasceu seu primeiro impulso de escritor.

“Ali percebi: talvez eu não fosse um político de carreira, mas um pensador precisando escrever para entender o mundo”, conta.

O sentimento de contradição — entre o ideal e a realidade — o levou a usar a palavra como uma forma de reflexão ética. A escrita passou a ter como objetivo, para ele, um prolongamento da execução coral: múltiplas vozes compondo harmonia a partir das diferenças.

O poeta em meio às contradições

Em 1984, ainda sentindo-se um político, decidiu declarar-se escritor. Começou com poesias inspiradas no tema “Construir felicidade”, influenciado por Vinicius de Moraes. “Queria destacar o encontro como sentido da ação em busca da felicidade”, explica. O livro ainda está inédito, mas abriu as portas para outros projetos. 

O principal deles se transformou em outro livro, “Mais um pra vencer”, surgido da observação do cotidiano nos escritórios, um mundo de rotinas, disputas e sonhos pequenos transformados em versos e textos em prosa. Essa experiência serviu de embrião para o projeto de um espetáculo musical baseado no coral, um de seus grandes sonhos ainda hoje, cujas linhas mestras estão juntadas numa minuta denominada “Musical do Escritório”.

Além de uma atividade artística, o CORALUSP foi o espaço onde Vasco encontrou Jacy, sua esposa há 48 anos.

“Cantamos juntos há meio século”, sorri. Se conheceram justamente ali, e construíram uma família composta hoje por quatro filhos, genro, nora e cinco netos. Ela se tornaria integrante do Coral Lírico do Theatro Municipal de São Paulo, onde está há mais de 30 anos. E ele se fez desde sempre seu mais fiel ouvinte. “Atualmente não canto, mas acompanho tudo de perto. A música nos mantém unidos à vida.” 

A música, para Vasco, nunca foi apenas expressão artística: foi abrigo e linguagem de pertencimento. Uma foto sua resume bem essa vocação: desde 1980, ele e Jacy, ao lado de amigos músicos, participando por mais de 20 anos de apresentações natalinas em igrejas. “Passamos a vida inteira cantando”, conta. 

Do mundo político ao mundo das letras

Em 1995, Vasco saiu do serviço público para dedicar-se à advocacia até 2001, quando deixou seu escritório e passou a concentrar-se em negócios da família e à escrita. Seu primeiro livro publicado, Meu amigo Paulo de Tarso (2010), nasceu do desejo de registrar a trajetória pública do pai, seu constante inspirador. “Quis deixar escrito quem ele foi e quem fui eu ao seu lado”, afirma.

Hoje, anos depois, Vasco traz a público “Histórias de Folgados e Fiéis”, um projeto simbólico e reflexivo recém-publicado em 2025. A obra é motivada pela esperança da contribuição de cada um por um mundo melhor. Utiliza narrativas e pensamentos já constantes de suas obras anteriores: “Construir Felicidade” e “Mais um pra vencer”. Traz observações sobre fé, lealdade, convivência e contradição no convívio humano. “A reflexão se centrou na relação de fé existente no contato entre pessoas”, explica. E disseca a má-fé, como forma de ajudar a qualquer um livrar-se de más fidelidades em função da autorrealização. O livro combina o olhar filosófico e a ironia do cronista, com o ouvido afinado de quem aprendeu a escutar vozes em harmonia.

A imagem mais recente de seu arquivo pessoal resume bem esse novo tempo: Vasco, sentado diante da janela de casa, segura o exemplar de Histórias de Folgados e Fiéis com expressão serena.

Para Vasco, há uma linha clara entre suas obras. “Histórias de Folgados e Fiéis” é o ponto de chegada lógico de tudo escrito antes, e um recomeço. Nele, aparecem trechos de poemas de “Construir Felicidade” (1984) e “Mais um pra vencer”(1992), criando uma coerência rara: “Tudo desemboca aqui”, diz.

No livro, ele enfrenta crenças antigas com serenidade: “Discordo das generalizações, tais como todo político ser corrupto ou de nunca conseguirmos vencer a ignorância. Acredito ser possível construir um mundo melhor, caso aceitemos um ao outro como parceiro, não como inimigo.”

Memória, ideal e família

Entre as fotos mais recentes, há uma de 2017 por ele considerada especial: toda a família reunida celebrando os 44 anos de casamento deles. Outra, de fim de ano, mostra filhos, genros, noras e netos em volta da mesa.

Hoje, ele vive em São Paulo, com o mesmo entusiasmo de quem ainda sonha alto. Continua escrevendo, cantando esporadicamente e revisitando memórias. Seu olhar de cronista-político se mistura ao de poeta-coralista, ambos movidos pelo mesmo fio: a busca do mundo melhor, por muitos chamado de ideal. A este respeito ele diz:

“No passado fui idealista, pois pretendia conhecer e defender o melhor para a comunidade. Hoje já não tenho uma verdade para me empenhar como se fosse a adequada…. Me apoio nas minhas ideias, mas não luto por elas, pois luta não constrói.

Busco metas negociadas e aceitas por consenso entre os interessados envolvidos na realidade enfocada, cada um levando em conta o próprio pensamento…. Valorizo a boa-fé na construção mútua da felicidade, cada pessoa adaptando-se ao novo e levando benefícios aos demais integrantes dos grupos aos quais pertence. Coopero para o sonho de construir felicidade. Neste sentido dou valor às boas contribuições de qualquer um”.

Talvez por isso sua escrita soe tão viva, não apenas pela eloquência das palavras, mas pela honestidade do percurso.

Mesmo longe dos circuitos literários tradicionais, Vasco mantém o desejo de diálogo. “Escrevo e quero conversar sobre meus escritos”, afirma. Sem planos grandiosos, ele se vê hoje como um observador ativo da vida: cuida da família, acompanha o coral da esposa e segue refletindo sobre ética, convivência e cultura brasileira.

Caso surja a oportunidade, pretende também revisitar seu projeto Musical do Escritório, para produzir o espetáculo. “Seria a maneira mais completa de unir minhas vivências: a música, o trabalho e a arte de conviver.”

Afinal, como mostram as fotos atravessando sua história, do menino exilado ao avô cantor, Vasco Santos fez da vida um coral: vozes se encontram, desafinam, se ajustam e, juntas, constroem um tempo novo.

Todas essas vozes — a do exilado, do advogado, do poeta, do coralista e do cidadão — se reúnem em Histórias de Folgados e Fiéis. O livro é, ao mesmo tempo, uma síntese e uma partitura: cada crônica traz sua orientação; cada reflexão visa um gesto de harmonia.

Vasco Santos escreve como quem rege: sem buscar o volume, mas o equilíbrio. E talvez isto o defina: não o idealismo, mas a humanidade de quem entende ser preciso primeiro escutar, para então poder mudar o mundo.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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