Regendo o Amor: A ópera sob o arco e a batuta, de Ariadine Netto, é um romance delicado que transforma a música em sentimentos
Em Regendo o Amor: A ópera sob o arco e a batuta, de Ariadine Netto, a música ocupa um lugar importante: respira dentro da narrativa, interfere nas emoções, organiza os silêncios e conduz os personagens quase como uma presença viva. A história de Catarina e Fábio nasce dentro desse universo de ensaios, partituras e apresentações, mas o que realmente move o livro é algo mais íntimo: a sensação de pertencer a algo que continua chamando você de volta, mesmo depois de todas as tentativas de ir embora.
Catarina é contrabaixista e carrega uma relação profundamente emocional com a música. Não como hobby ou simples profissão, mas como parte da própria identidade. Há algo muito bonito na forma como a narrativa mostra que ela não toca apenas porque gosta, ela toca porque existe uma necessidade ali. Como se o som do contrabaixo organizasse partes dela que o mundo fora do palco não consegue alcançar.
E então surge Fábio Vasconcellos, um maestro com presença firme e olhar atento. Um homem que parece compreender a música da mesma maneira intensa e silenciosa que Catarina. A conexão entre os dois não acontece de forma explosiva ou exagerada. Pelo contrário: ela cresce em olhares demorados, pequenos gestos e momentos em que a música diz aquilo que nenhum dos dois consegue verbalizar completamente.
Um romance construído na delicadeza
O grande acerto de Ariadine Netto está justamente na sutileza com que constrói esse relacionamento. Regendo o Amor não aposta em grandes escândalos emocionais ou em conflitos artificiais para prender o leitor. A força do romance nasce da tensão silenciosa entre duas pessoas que parecem se reconhecer antes mesmo de entender exatamente por quê.
Existe uma maturidade emocional muito grande na forma como Catarina e Fábio se aproximam. Os ensaios funcionam quase como diálogos íntimos. O movimento da batuta dele, a maneira como ela responde através do instrumento, os silêncios depois das apresentações, tudo vai criando uma proximidade que ultrapassa o físico. Em muitos momentos, a impressão é de que eles se comunicam mais pela música do que pelas palavras.
E isso faz sentido dentro da proposta do livro. Porque essa não é apenas uma história sobre se apaixonar por alguém. É também sobre reencontrar partes de si mesmo através da arte.
Quando a música deixa de ser cenário
Um dos aspectos mais interessantes da narrativa é justamente a forma como a autora transforma a música em elemento emocional. O universo da música clássica não aparece apenas como pano de fundo elegante para um romance. Ele estrutura toda a experiência da leitura.
A construção inspirada na dinâmica de uma ópera fica evidente no ritmo da narrativa. Existem momentos mais intensos, quase dramáticos, seguidos por pausas delicadas, contemplativas, silenciosas. O livro parece respirar no mesmo compasso das apresentações musicais que descreve.
Além disso, a relação de Catarina com a música carrega algo muito simbólico. Em vários momentos, o maestro deixa de ser apenas um interesse romântico e passa a representar também esse chamado inevitável da arte. Há uma leitura muito profunda sugerida pela narrativa: Fábio não é apenas um homem, ele também simboliza a própria música retornando para Catarina, lembrando-a de quem ela é.
Um livro sobre pertencimento
Existe uma pergunta silenciosa atravessando toda a narrativa: quantas vezes tentamos abandonar aquilo que, no fundo, sempre foi parte de nós?
Catarina passa boa parte da história tentando entender seu lugar no mundo. E isso torna a personagem extremamente sensível. Ela não é construída como alguém completamente segura ou grandiosa. Existem dúvidas, hesitações e momentos em que parece emocionalmente perdida. Mas sempre que a música retorna, alguma coisa dentro dela também volta a respirar.
Ariadine Netto consegue traduzir muito bem essa relação quase visceral entre artista e arte. Há pessoas que conseguem abandonar determinados sonhos sem olhar para trás. Catarina não parece ter essa opção. A música continua existindo nela mesmo quando tenta silenciá-la. E o livro entende isso com delicadeza.
Atmosfera sensível e extremamente imagética
Outro ponto forte da obra está na ambientação. Os palcos, teatros, ensaios e bastidores são descritos de forma muito sensorial. O leitor quase consegue ouvir o som da orquestra afinando antes das apresentações, sentir o peso do silêncio antes do primeiro movimento da batuta ou perceber a vibração grave do contrabaixo preenchendo o ambiente.
A escrita de Ariadine possui uma suavidade muito envolvente. Não tenta impressionar pela grandiosidade das frases, mas pela capacidade de construir emoção através de detalhes pequenos. Um olhar sustentado por tempo demais. Uma pausa durante um ensaio. Um sorriso discreto depois de uma interação.
São essas pequenas cenas que sustentam emocionalmente a narrativa. E isso combina muito com a proposta do livro, porque a história inteira parece construída sobre sentimentos que não precisam ser exagerados para serem intensos.
Amor, arte e vulnerabilidade
Existe também um olhar admirável na forma como Regendo o Amor associa vulnerabilidade e arte. Tanto Catarina quanto Fábio parecem mais verdadeiros quando estão próximos da música. Como se o palco retirasse certas defesas emocionais que o cotidiano insiste em manter.
A narrativa compreende que criar arte exige exposição. E amar alguém também. Por isso, o romance dos dois nunca soa apenas idealizado.
Há receio, silêncio, dificuldade de comunicação e uma intensidade emocional que muitas vezes assusta justamente por ser genuína. O livro trabalha essa conexão de maneira madura, sem transformar tudo em dramatização excessiva. O amor aqui chega para reorganizar esses sentimentos.
Uma leitura que permanece como música depois do fim
Ao terminar Regendo o Amor: A ópera sob o arco e a batuta, fica uma sensação muito parecida com a de sair de um teatro depois de uma apresentação marcante. Não necessariamente pela grandiosidade da trama, mas pela experiência emocional construída ao longo da leitura.
Ariadine Netto escreve uma história delicada, sensível e profundamente apaixonada pela arte. Um romance que entende que algumas conexões não precisam de grandes explicações porque simplesmente fazem sentido quando acontecem.
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