Yuri Kubala: o autor que transformou a dor de cuidar dos pais em um relato íntimo sobre amor, fragilidade e perdão

Existem momentos que reorganizam completamente uma família. Não aos poucos, mas de forma brusca, irreversível. Para Yuri Kubala, esse momento chegou quando sua mãe sofreu um AVC com sequelas severas. A partir dali, tudo mudou de posição: os filhos passaram a cuidar da mãe, o cotidiano ganhou outra lógica e a fragilidade deixou de ser uma ideia distante para ocupar cada detalhe da rotina.

Foi dessa experiência que nasceu Meus Pais Usavam Fraldas, livro lançado em fevereiro de 2026 pela Editora Labrador. Inspirada em acontecimentos reais, a obra transforma um período profundamente delicado em narrativa, sem romantização excessiva, mas também sem perder sensibilidade.

Entre o empresário e o escritor

Antes de publicar seu primeiro livro, Yuri já tinha uma trajetória consolidada fora da literatura. Empresário, investidor e formado em Comércio Exterior, também possui pós-graduação em Neurociências, além de certificações em Copywriting, Finanças e Gestão Empresarial pelo Insper.

A escrita, no entanto, sempre esteve presente de alguma forma. Desde criança, a leitura fazia parte da rotina. Ele conta que só podia sair para brincar depois de ler algumas páginas. Começou por Homero, ainda sem compreender completamente o que lia, mas já desenvolvendo uma relação afetiva com os livros.

Com o tempo, a leitura deixou de ser obrigação e passou a funcionar como hábito, refúgio e, anos mais tarde, como possibilidade de expressão.

Um livro que nasce antes da perda

Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, Meus Pais Usavam Fraldas começou a ser pensado enquanto seus pais ainda estavam vivos. A ideia surgiu no meio do caos provocado pelas mudanças que a doença trouxe para dentro da família.

Havia um desejo quase urgente de contar aquilo para alguém. Não como busca por exposição, mas como tentativa de suportar emocionalmente o que estava acontecendo.

Transformar dor em narrativa acabou se tornando uma forma de organizar sentimentos que pareciam difíceis demais de carregar sozinho.

Cinco anos entre pausas, desistências e coragem

O processo de escrita levou cinco anos. Mas não por falta de história. A dificuldade nunca esteve na criatividade. Os fatos já existiam, as memórias também. O desafio real era outro: revisitar tudo aquilo sem se proteger emocionalmente.

Durante esse período, Yuri alternou momentos de avanço com longas pausas. Em muitos deles, acreditava não ter capacidade para terminar o livro.

Havia desistência, insegurança e o peso constante das lembranças. Até que, em 2025, tomou a decisão de concluir o projeto. Nos seis meses seguintes, escreveu intensamente, quase sem interrupção.

Para reconstruir a cronologia dos acontecimentos, Yuri encontrou uma ajuda inesperada: o Facebook do pai. As postagens funcionaram como uma linha do tempo da família, ajudando a organizar datas, eventos e memórias.

Mas nem toda lembrança vinha de forma suportável. Segundo o autor, muitos momentos da escrita foram interrompidos por lágrimas, às vezes pelo orgulho de perceber que conseguia transformar experiências tão difíceis em algo literariamente bonito; outras vezes porque era impossível revisitar certos episódios sem reviver a dor que carregavam.

A inversão dos papéis e tudo o que ela revela

No livro, acompanhamos Alan, nome fictício escolhido para o protagonista, tentando compreender o novo lugar que passou a ocupar dentro da própria família.

Após o AVC da mãe, ele e os irmãos, junto ao pai, assumem funções que antes pareciam impensáveis: trocar fraldas, ajudar no banho, alimentar, cuidar. O gesto de cuidar deixa de ser simbólico e se torna físico, diário, exaustivo.

Mas Meus Pais Usavam Fraldas não se limita ao impacto da doença. A narrativa também mergulha em questões mais profundas: mágoas da infância, ressentimentos, fé, culpa e a tentativa de reconstruir emocionalmente relações que já eram complexas antes da tragédia.

Em meio a esse processo, o pai também adoece, alterando novamente o equilíbrio familiar.

Humor, dor e humanidade convivendo no mesmo espaço

Embora trate de temas pesados, Yuri evita transformar o livro em um relato excessivamente dramático. Há humor, ironia e momentos genuinamente engraçados espalhados pela narrativa.

Essa escolha talvez seja justamente o que torna o texto mais realista.

A vida real dificilmente se organiza em um único tom emocional. Mesmo em períodos difíceis, existem situações absurdas, diálogos improváveis e momentos de afeto inesperado. O autor preserva essa complexidade sem recorrer à autopiedade.

Uma carta aberta disfarçada de romance

Apesar da mudança de nomes e cidades para preservar a privacidade das pessoas envolvidas, Yuri deixa claro que o livro é uma espécie de carta aberta sobre tudo o que viveu.

Há inclusive pequenos detalhes na narrativa que revelam discretamente sua identidade, como uma cena em que o protagonista é chamado por um apelido que denuncia que ele não se chama Alan.

Esses elementos reforçam a proposta do livro: não criar distância entre autor e narrativa, mas assumir que aquela história pertence diretamente à sua vida.

O impacto de expor a própria vulnerabilidade

Talvez o ponto mais difícil de Meus Pais Usavam Fraldas tenha sido justamente esse: a exposição emocional.

Yuri precisou abrir mão da proteção que normalmente construímos em torno das próprias memórias para conseguir narrar os acontecimentos com honestidade.

A narrativa não tenta transformar ninguém em herói absoluto nem simplificar relações familiares complexas. O livro reconhece contradições, ressentimentos e falhas, sem perder o afeto.

Uma história que fala sobre mais do que doença

Embora o ponto de partida seja o AVC da mãe, o livro acaba discutindo algo maior: o momento em que filhos deixam de enxergar os pais como figuras invulneráveis e passam a lidar com a fragilidade deles de maneira concreta.

Essa inversão de papéis transforma não apenas a rotina, mas a forma como memórias, mágoas e vínculos são revisitados.

Ao transformar essa experiência em literatura, Yuri Kubala oferece ao leitor um retrato sincero de uma travessia que muitas famílias conhecem, mas poucas conseguem colocar em palavras.

Meus Pais Usavam Fraldas não é apenas um livro sobre doença ou envelhecimento. É uma reflexão sobre amor em sua forma menos idealizada e mais verdadeira: aquela que permanece quando a autonomia desaparece, quando as feridas do passado reaparecem e quando cuidar deixa de ser uma escolha para se tornar uma das expressões mais profundas do afeto.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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