Ariadine Netto: a autora que transformou a música em literatura e criou um gênero próprio para suas histórias
Muito antes de se tornar escritora, Ariadine Netto já encontrava na arte uma forma de compreender o mundo. Mas não foi a literatura que surgiu primeiro em sua vida. Foi a música.
Ainda criança, desenvolveu uma paixão quase improvável pela música clássica. Improvável porque não vinha de uma família ligada às artes e porque ninguém ao seu redor compartilhava daquele mesmo encantamento. Enquanto outras crianças se interessavam por universos mais comuns à infância, Ariadine se via fascinada por compositores como Tchaikovsky, Bach, Vivaldi e Villa-Lobos.
Ao mesmo tempo, também demonstrava uma sensibilidade incomum para a criatividade visual. Participou e venceu diversos concursos de desenho, poesia e produção textual ao longo da infância e adolescência, revelando um olhar atento para aquilo que muitas vezes passa despercebido.
Pinturas de Monet e Van Gogh, peças artesanais, sinfonias, literatura e narrativas fantásticas formavam um mosaico de referências que, anos mais tarde, ajudariam a construir sua identidade como autora.
O paradoxo que tornou a escrita ainda mais improvável
Há uma curiosidade que ajuda a compreender a trajetória de Ariadine: ela convive com o Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH).
E foi justamente isso que fez com que a ideia de se tornar escritora parecesse, durante muito tempo, improvável.
Ler livros sempre foi um desafio. Não por falta de interesse, mas pela dificuldade de manter a concentração durante longos períodos. Houve obras que tentou iniciar sete vezes sem conseguir concluir. Quando chegava à metade, já não lembrava detalhes importantes do início e precisava recomeçar. Mesmo assim, continuava escrevendo.
Escreveu seu primeiro romance aos dez anos de idade. Ganhou concursos literários. Teve destaque em redação. Mas guardava tudo para si.
A pergunta que a acompanhava era simples e cruel ao mesmo tempo: como alguém que tinha dificuldade para terminar livros poderia se tornar escritora?
Durante anos, essa dúvida foi suficiente para manter seus textos longe do olhar de outras pessoas.
Entre a arte e o mercado financeiro
Na juventude, a música continuou ocupando um lugar central em sua vida. Ariadine chegou a compor músicas populares e instrumentais, escreveu uma trilha sonora para o Trabalho de Conclusão de Curso e criou até mesmo uma rapsódia. Mas a vida adulta trouxe outras exigências.
A necessidade de construir uma carreira a levou para um caminho distante das artes. Formou-se em Administração, fez pós-graduação em Marketing pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e iniciou uma trajetória no setor bancário.
Permaneceu por treze anos na mesma instituição financeira. Foi um período de crescimento profissional, mas também de grande desgaste emocional. Entre metas, certificações e jornadas exaustivas, precisou desenvolver uma disciplina rigorosa para superar obstáculos que o TDAH tornava ainda mais desafiadores.
Para conquistar uma certificação na área de investimentos, por exemplo, acordava diariamente às quatro da manhã para estudar antes do trabalho.
Mas foi justamente nesse contexto que a escrita voltou a ocupar espaço.
A escrita como reencontro
O retorno à literatura aconteceu como uma necessidade emocional. Mais do que o cansaço físico, era o desgaste mental que começava a cobrar seu preço. Escrever tornou-se uma forma de reorganizar pensamentos, processar sentimentos e recuperar uma parte de si mesma que parecia esquecida.
Foi durante esse período que nasceu Aurium – O Desafio da Harmonia Selvagem, fantasia musical ambientada em um universo onde a música ocupa o lugar da magia.

Curiosamente, o livro foi concluído no mesmo momento em que Ariadine conquistava a certificação profissional pela qual havia estudado durante meses.
Como se uma vitória marcasse o encerramento de um ciclo e o início de outro. A obra será publicada pela Editora Flyve e tem lançamento previsto para a Bienal do Livro de São Paulo.
O nascimento da ficção musical
Ariadine costuma definir sua produção literária como “ficção musical”.
O termo não se refere apenas à presença da música nas histórias, mas ao papel estrutural que ela desempenha dentro das narrativas.
Em seus livros, a música não funciona como pano de fundo. Ela move personagens, transforma ambientes, influencia conflitos e conduz emoções.
No drama O Percurso que os Cascos Enxergam por Mim, a música surge como instrumento de superação e conexão humana. Em Regendo o Amor – A Ópera sob o Arco e a Batuta, lançado pela Caravana Grupo Editorial, ela se torna a própria espinha dorsal da narrativa romântica.
Já em Aurium, ela assume proporções ainda maiores, tornando-se parte do sistema mágico que sustenta todo o universo ficcional.
Quando a música virou personagem
Entre todas as suas obras, talvez Regendo o Amor seja a mais pessoal. O livro nasceu a partir de uma chamada para novos autores promovida pela Caravana Grupo Editorial. O desafio era escrever um romance curto.
Mas Ariadine não queria criar apenas mais uma história de amor. Então decidiu escrever sobre a relação mais profunda que conhecia. A sua própria relação com a música.
Por trás do maestro Fábio, um dos personagens centrais da trama, existe uma metáfora cuidadosamente construída. Ele representa a própria música, uma presença que a acompanhou desde a infância, da qual precisou se afastar na vida adulta e que, anos depois, a recebeu novamente.
Essa reconexão aconteceu de forma inesperada, quando um saxofone tenor apareceu em sua vida após mais de uma década distante do universo musical.
Ao retornar, descobriu que aquilo que acreditava ter abandonado ainda estava esperando por ela. Essa experiência se tornou o coração emocional do livro.
Histórias que convidam o leitor a escutar
Existe um elemento comum em todas as obras de Ariadine Netto: o desejo de aproximar as pessoas da música.
Cada livro funciona como um convite para descobrir novos compositores, instrumentos, estilos musicais e formas de escuta.
Mas, acima disso, suas histórias convidam o leitor a perceber algo que ela aprendeu desde muito cedo: algumas experiências não podem ser explicadas apenas pela razão. Precisam ser sentidas.

E é justamente nesse encontro entre música, emoção e narrativa que Ariadine constrói uma identidade literária singular. Uma autora que transformou sua maior paixão em linguagem e que encontrou na literatura uma forma de fazer a música continuar ecoando, mesmo quando nenhuma nota está sendo tocada.
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