A Fera de Três Faces, da autora Ana Flávia G. Machado, é uma obra de fantasia sombria que mistura romance, mistério e atmosfera inquietante
A Fera de Três Faces, de Ana Flávia G. Machado, começa com uma proposta que parece saída de um conto de fadas: um palácio reaberto depois de 28 anos, sete noites de baile de máscaras, jovens da corte e uma protagonista que enxerga nas festividades a possibilidade de escapar de um casamento arranjado. Mas existe algo de inquietante desde o início. As máscaras não servem apenas para embelezar a festa, o anfitrião é um homem cercado de mistérios e as regras impostas aos convidados fazem pensar que, naquele palácio, a curiosidade pode ter consequências.
Ariyah Clé esperou durante anos pela oportunidade de retornar à vida da sociedade nobre. Quando o Grão-Duque de Draíochtach finalmente abre as portas de seu palácio, ela encontra uma chance bastante concreta de mudar o próprio futuro. Ariyah e seu irmão, Diarmaid, fazem um acordo: caso ela encontre durante o baile um pretendente de posição igual ou superior à de seu atual prometido, poderá escolher com quem deseja se casar.
É uma condição que transforma as sete noites em algo muito maior do que uma sequência de festas. Para Ariyah, existe um prazo e existe uma liberdade em disputa.
Sete noites dentro de um palácio cheio de regras
Ana Flávia G. Machado constrói o baile a partir de uma combinação especialmente interessante entre exuberância e proibição. Comidas e bebidas saborosas, atrações excêntricas e fantasias elaboradas criam a aparência de um acontecimento extraordinário, enquanto as regras do Grão-Duque lembram constantemente aos convidados de que aquela liberdade possui limites.
Durante as festas, convidados e funcionários devem permanecer mascarados. As máscaras só podem ser retiradas quando cada pessoa estiver em seus aposentos. Depois do encerramento das atividades, ninguém pode sair do quarto. Os convidados circulam pelo palácio, exceto por uma área específica da ala Leste, no terceiro andar. E ainda existe uma ordem curiosamente particular: não fazer piadas com o nome do anfitrião.
Essas restrições funcionam muito bem dentro da proposta da fantasia sombria porque alimentam a desconfiança sem entregar imediatamente suas respostas. Quanto mais específico é um aviso, maior é a vontade de entender por que ele existe. O palácio oferece diversão e romance, mas também estabelece fronteiras que parecem pedir para serem investigadas.
E Ariyah é justamente uma personagem marcada pela curiosidade e pela coragem de se posicionar.
Ariyah e o peculiar Bunny-Lion
A personalidade vibrante e destemida de Ariyah é um dos pontos que mais me conquistaram. Sua busca por liberdade já lhe dá um objetivo claro, mas é na interação com o Grão-Duque que ela ganha ainda mais presença.
O anfitrião dificilmente poderia causar uma primeira impressão mais estranha. Bunny-Lion aparece usando uma máscara de coelho que cobre completamente a cabeça e uma cauda de leão presa às vestes. Os funcionários acompanham a proposta com máscaras de diferentes animais, preservando suas identidades e tornando o próprio baile um grande exercício de aparência e ocultação.
É nesse cenário que a química entre Ariyah e Bunny-Lion encontra espaço para crescer. Ela o considera “arrogante, orgulhoso, soberbo, irritante” e precisa lidar com as próprias palavras quando esse mesmo anfitrião consegue fazê-la se sentir dentro de um conto de fadas. Essa dinâmica traz tensão ao romance porque Ariyah não perde sua personalidade diante dele. Há atração, mas também confronto e resistência.
O resultado é uma relação que combina muito bem com o restante da história: aquilo que desperta fascínio também provoca dúvida.
Quando o conto de fadas começa a escurecer
Um dos aspectos que mais funcionaram para mim foi justamente o contraste entre a aparência da história e aquilo que ela promete revelar. O baile tem máscaras, dança, romance, comidas, atrações e um anfitrião extravagante. Seria fácil permanecer somente no encantamento dessa ideia. A Fera de Três Faces, porém, deixa claro que seus contos de fadas também podem ser violentos.
A atmosfera misteriosa sustenta boa parte dessa experiência. Há segredos suficientes para fazer o leitor desconfiar das pessoas ao redor de Ariyah, enquanto as identidades escondidas pelas máscaras tornam essa sensação ainda mais adequada ao ambiente. A pergunta deixa de ser apenas quem está por trás de cada rosto oculto. Também importa o que acontecerá quando essas aparências finalmente deixarem de protegê-los.
A escrita de Ana Flávia G. Machado foi outro elemento que tornou a leitura muito agradável para mim. A narrativa flui com naturalidade, enquanto a riqueza de detalhes ajuda a construir o caráter excêntrico das festividades e a sensação de estar dentro daquele baile. Há ainda uma qualidade poética atravessando essa fantasia sombria sem apagar seus momentos de tensão.
Um capítulo 39 difícil de esquecer
As reviravoltas e os segredos mantiveram minha curiosidade durante a leitura, mas o capítulo 39 merece uma menção especial (sem revelar absolutamente nada sobre o que acontece nele).
A grande revelação foi daquelas que me fizeram parar por alguns instantes e simplesmente encarar o livro. É um choque que funciona justamente porque muda a maneira como determinadas informações são percebidas. Para uma história construída em torno de máscaras, mistério e identidades preservadas, chegar a uma revelação capaz de provocar esse tipo de reação foi um dos grandes prazeres da leitura.
E talvez seja por isso que o contraste proposto desde o começo funcione tão bem. Ariyah entra no baile procurando uma alternativa para um casamento enfadonho e uma oportunidade de decidir o próprio futuro. Encontra um palácio deslumbrante, um anfitrião impossível de ignorar e sete noites que parecem oferecer aquilo que ela desejava. Só que liberdade, naquele lugar, convive o tempo inteiro com regras, segredos e perigo.
A Fera de Três Faces me surpreendeu principalmente pela maneira como reúne romance, fantasia sombria e mistério dentro de uma ambientação muito particular. A química entre Ariyah e Bunny-Lion sustenta a expectativa romântica, enquanto as máscaras, as proibições do palácio e as revelações impedem que o baile se torne apenas um cenário bonito.
Para quem gosta de fantasias sombrias, romances cercados de tensão, anfitriões misteriosos e histórias que escondem informações até o momento certo de revelá-las, o livro de Ana Flávia G. Machado tem uma proposta especialmente atraente. Eu entrei pelo baile de máscaras e pela curiosidade em torno de Bunny-Lion; terminei a leitura ainda tentando processar o que a autora reservou para suas grandes revelações.
Adquira agora mesmo seu exemplar disponível na Amazon. Aproveite também para seguir a autora no Instagram e fique por dentro de todas as novidades.











