Minhas Memórias Afetivas, do autor Luís Augusto de Rezende Pena, é uma obra sobre infância, saudade e as lembranças de uma geração criada no interior de Minas Gerais
Minhas Memórias Afetivas, do autor Luís Augusto de Rezende Pena, é uma obra autobiográfica que retorna à infância e à adolescência vividas no interior de Minas Gerais durante as décadas de 1980 e 1990. O ponto de partida nasce de uma experiência bastante pessoal: com a chegada dos cinquenta anos e a saudade provocada por essa passagem, o autor, Promotor de Justiça em Sete Lagoas/MG, enfrenta o que chama de uma “crise nostálgica” e decide transformá-la em um caderno de recordações.
Essa origem ajuda a compreender a proposta do livro. Luís Augusto não pretende reconstruir o passado como uma sequência solene de grandes acontecimentos, nem apresenta suas lembranças como uma autobiografia tradicional. A escrita é assumidamente espontânea, sem roteiro ou pretensão literária.
O interesse está justamente nos fragmentos de uma vida que, vistos isoladamente, podem parecer simples, mas juntos recuperam pessoas, lugares, brincadeiras, descobertas e experiências que ajudaram a formar quem escreve. É uma memória individual que encontra força ao tocar também uma memória coletiva.
Ouro Branco e uma infância antes dos algoritmos
Grande parte desse reconhecimento passa por Ouro Branco, cidade do interior mineiro onde transcorrem as lembranças da infância e adolescência do autor. O período escolhido também é fundamental: as décadas de 1980 e 1990 aparecem como um tempo em que as telas estavam associadas principalmente à televisão e ao cinema, as amizades se desenvolviam nas ruas e nas salas de aula e as cartas ainda chegavam pelas mãos dos carteiros.
Não se trata apenas de dizer que “antigamente era diferente”. O livro recupera essa diferença por meio de elementos concretos. Bicicletas, pipas, rolimãs e motos sucateadas fazem parte das recordações. As baladas em Conselheiro Lafaiete ampliam esse universo conforme infância e adolescência avançam. São detalhes cotidianos que ajudam a localizar a experiência de uma geração cuja sociabilidade se formou antes de relações e interesses serem mediados constantemente por algoritmos.
Essa escolha torna a nostalgia mais específica. A saudade não aparece como uma ideia abstrata sobre um passado supostamente melhor, mas vinculada a práticas, lugares e pessoas. É justamente essa concretude que permite ao leitor reconhecer experiências próprias mesmo quando sua história não é idêntica à de Luís Augusto.
Pessoas também são lugares da memória
As lembranças de Minhas Memórias Afetivas não se restringem às brincadeiras ou aos hábitos de determinada época. O autor revisita professores marcantes, os melhores amigos da infância e a primeira paixão, fazendo com que sua formação também seja contada pelas pessoas que atravessaram diferentes momentos de sua vida.
Esse aspecto é importante porque impede que o livro transforme memória apenas em inventário de objetos e costumes antigos. O afeto anunciado no título está também nos vínculos.
Ao recuperar essas relações, Luís Augusto mostra como determinadas pessoas permanecem associadas às versões que fomos de nós mesmos. Um professor pertence a uma fase específica. Um amigo de infância pode carregar consigo todo um período. Uma primeira paixão não precisa ser lembrada somente pelo romance, mas pelo que representa dentro do processo de crescer e descobrir sentimentos até então desconhecidos.
O passado recuperado pelo autor é, portanto, povoado. A memória existe porque há alguém com quem uma rua foi percorrida, uma aventura foi vivida ou determinado momento ganhou importância.
Das brincadeiras às escolhas da vida adulta
O livro também acompanha mudanças naturais conforme o autor cresce. Entre as recordações aparecem casos de polícia, aventuras na CEDAF e, posteriormente, a formação em Direito.
A formatura ao lado do próprio pai ganha um significado particular dentro desse conjunto porque aproxima diferentes tempos de uma mesma trajetória. Depois das memórias da infância, das amizades, das experiências escolares e da adolescência, surge um acontecimento ligado diretamente à vida adulta e à formação profissional.
É nesse movimento que a estrutura fragmentária encontra sua unidade. Cada capítulo pode registrar uma lembrança relativamente independente, mas a soma desses episódios permite observar uma vida sendo formada pouco a pouco.
Não existe necessidade de transformar todo acontecimento em uma grande lição. A própria proposta do livro parece reconhecer que uma memória pode merecer ser preservada simplesmente porque foi importante para quem a viveu. Essa ausência de grandiosidade combina com o caráter espontâneo da escrita e ajuda a preservar a proximidade das recordações.
Quando a lembrança de alguém desperta a nossa
Talvez o aspecto mais interessante de Minhas Memórias Afetivas esteja na relação que procura estabelecer com quem lê. O livro parte das experiências de Luís Augusto, mas não deseja manter o leitor apenas como observador da infância de outra pessoa.
Ao recuperar um período tão reconhecível para determinada geração, suas histórias podem funcionar como gatilhos para outras lembranças.
Uma bicicleta pode fazer alguém recordar a rua onde brincava. As pipas podem trazer de volta amigos cujos nomes não eram lembrados havia anos. A escola pode despertar a memória de um professor. As cartas, as festas e as brincadeiras podem devolver por alguns instantes a sensação de uma rotina que já não existe da mesma maneira.
Para quem cresceu no interior de Minas Gerais durante as décadas de 1980 e 1990, essa identificação tende a ser ainda mais direta. Há uma geografia e um período muito definidos sustentando o livro. Ao mesmo tempo, a proposta de revisitar a própria formação por meio de pequenas lembranças permite que leitores de outros contextos encontrem pontos de aproximação.
Um mosaico construído pelo afeto
Minhas Memórias Afetivas encontra sua identidade justamente naquilo que não tenta ser. Luís Augusto de Rezende Pena não apresenta suas recordações com pretensão de transformar cada episódio em literatura grandiosa. O livro assume a forma de um caderno espontâneo e sincero, no qual humor, emoção e gratidão surgem da recuperação do vivido.
A chegada dos cinquenta anos provoca o retorno ao passado, mas esse retorno não permanece fechado na experiência do autor. Ao reunir infância, adolescência, amigos, professores, primeira paixão, aventuras e formação profissional, Luís Augusto constrói um mosaico no qual pequenas histórias passam a adquirir significado pela proximidade entre elas.
É uma leitura especialmente indicada para quem aprecia memórias autobiográficas e relatos sobre a vida no interior, mas pode ter um significado particular para quem viveu a infância e a juventude nos anos 1980 e 1990. Porque, enquanto Luís Augusto organiza suas próprias recordações, o leitor pode acabar fazendo silenciosamente o mesmo: reconhecendo em uma brincadeira, em uma amizade ou em determinado costume a porta de entrada para uma história que pertence somente a ele.
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