Ana Flávia: conheça a autora que desenha seus personagens antes de transformá-los em histórias de fantasia
Antes de saber exatamente o que aconteceria com Hana, Ana Flávia já conhecia seus traços. A personagem aparecia nos desenhos que a escritora fazia aos 13 anos e, pouco a pouco, começou a despertar perguntas sobre quem era, onde vivia e qual história poderia carregar. Chegou um momento em que a imagem já não bastava para responder a tudo. Ana precisou escrever.
Foi dessa passagem natural entre desenho e palavra que nasceu O Estranho Jogo da Vida, série que marcou o início de sua trajetória literária ainda na adolescência.
Nascida e criada em Belo Horizonte, Minas Gerais, Ana Flávia cresceu desenvolvendo uma relação com diferentes linguagens artísticas que permanece evidente em sua produção. Escritora de fantasia, ela também possui formação diretamente relacionada à criação visual: graduou-se na área de Cinema & Animação pela FAAP e realizou especialização em Animation Concept Art pela Vancouver Film School. Atualmente, cursa mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC-SP.
Literatura, desenho, cinema, animação e música, portanto, não aparecem como interesses isolados. São diferentes ferramentas utilizadas por uma autora que costuma enxergar suas histórias antes mesmo de escrevê-las.
Hana e o começo de uma trajetória aos 13 anos
A história de Ana como escritora está diretamente ligada à criação de Hana, protagonista de O Estranho Jogo da Vida.
Enquanto desenhava a personagem, começou espontaneamente a imaginar elementos para sua trajetória. Cada nova ilustração acrescentava alguma informação àquele universo, até que as possibilidades narrativas se tornaram grandes demais para permanecer apenas no campo visual.
Aos 13 anos, começou a escrever. A experiência resultaria não somente em um livro, mas em uma série, acompanhando também o próprio amadurecimento de Ana como autora.

Esse início ajuda a compreender uma característica que ainda hoje permanece em seu processo criativo. Seus personagens não necessariamente surgem de planejamentos literários detalhados. Algumas vezes, eles simplesmente aparecem primeiro no papel, desenhados, e conquistam gradualmente uma personalidade, um passado e conflitos próprios. Foi exatamente o que voltaria a acontecer depois.
Um novo personagem aparece nos desenhos
Após concluir o último volume de O Estranho Jogo da Vida, Ana percebeu que outra figura começava a ocupar suas ilustrações: Bunny-Lion.
Inicialmente, não existia qualquer certeza de que aquele personagem protagonizaria uma nova obra. Ele era apenas uma presença recorrente em seus desenhos.
Mas, novamente, a curiosidade começou a trabalhar. Ana passou a imaginar sua história e relacioná-la a outras criações visuais. Entre elas estava Ariyah. A combinação desses elementos acabou estabelecendo as bases para um novo projeto literário.
Assim nasceu A Fera de Três Faces, seu lançamento mais recente. Desta vez, Ana construiu uma fantasia sombria romântica, aprofundando características que já fazem parte de suas preferências enquanto leitora e escritora: universos fantásticos atravessados por uma estética gótica, atmosferas mais densas e personagens envolvidos em situações que escapam do previsível.
A autora ainda define a obra como uma história com “um final para poucos”, indicando uma narrativa que não pretende necessariamente oferecer ao leitor o caminho mais confortável.
Fantasia como território de liberdade
Ana considera a fantasia seu gênero literário de conforto. É nesse território que encontra maior liberdade para desenvolver personagens, atmosferas e acontecimentos. Ainda assim, sua relação com o gênero não significa repetição de uma fórmula.
Elementos góticos e sombrios aparecem com frequência e ajudam a definir a personalidade de seus universos.
Essa inclinação também dialoga com sua formação visual. O estudo de Cinema & Animação e, posteriormente, de concept art oferece ferramentas para pensar personagens não apenas por aquilo que fazem ou dizem, mas também pela maneira como ocupam visualmente um determinado mundo.
Em suas histórias, imaginar e escrever acontecem em constante comunicação.
Desenhar para descobrir o que escrever
Quando tenta explicar seu processo criativo, Ana retorna inevitavelmente ao desenho. Criar visualmente um personagem pode ser a primeira etapa para descobrir uma narrativa inteira.
Em vez de separar ilustração e literatura, ela permite que uma linguagem interfira na outra. O desenho apresenta perguntas; a escrita procura desenvolvê-las. Mas existe outro elemento indispensável nesse processo: a música.
Ana escuta diferentes estilos enquanto cria e utiliza as canções para imaginar cenas e compreender o ritmo dos acontecimentos. Dependendo da música, uma sequência pode ganhar velocidade, intensidade ou assumir uma atmosfera completamente diferente.
Nesse sentido, sua formação em cinema também encontra reflexos no processo literário. Há uma preocupação não apenas com o que acontece, mas com o ritmo pelo qual a cena se desenvolve.
Para Ana, porém, inspiração não precisa obedecer a uma origem específica. Ela pode surgir de diferentes lugares, experiências e referências.
Uma autora formada entre imagens e narrativas
A trajetória acadêmica de Ana Flávia reforçou uma relação com a criação que começou muito antes da universidade.
Sua passagem pela FAAP aprofundou conhecimentos ligados ao cinema e à animação, enquanto a especialização na Vancouver Film School direcionou seu olhar para o concept art, área fundamental na construção visual de personagens e universos.

Atualmente, o mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC-SP acrescenta uma nova dimensão a esse repertório.
Essa combinação ajuda a explicar por que seus livros carregam um processo tão visual desde a origem. Antes de um personagem ocupar páginas de prosa, ele pode já possuir rosto, formas e presença nos desenhos da autora.
O próximo desafio está fora da fantasia
Depois de anos encontrando na fantasia seu principal território literário, Ana decidiu experimentar outra direção. Atualmente, trabalha em um livro de ficção sem elementos fantásticos.
A escolha representa um desafio deliberado para uma autora acostumada a recorrer à liberdade proporcionada por universos imaginários, componentes góticos e acontecimentos que ultrapassam as regras da realidade.
É também uma oportunidade de testar sua escrita em outras condições e descobrir quais características permanecem quando a fantasia deixa de conduzir a narrativa.
Da Hana desenhada aos 13 anos a Bunny-Lion e Ariyah, que ajudaram a dar origem a A Fera de Três Faces, Ana Flávia construiu sua trajetória permitindo que imagens, músicas e palavras se contaminassem criativamente.
Agora, ao se afastar temporariamente de seu gênero de conforto, amplia uma jornada que começou quando percebeu que alguns personagens não se contentam em existir apenas em um desenho. Eles exigem passado, conflitos, escolhas e um mundo inteiro ao redor e foi aprendendo a construir esses mundos que Ana encontrou sua própria maneira de fazer literatura.
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