Quebra de Protocolo, da autora Juliana Rondon, é uma obra marcante sobre amor, autonomia e escolhas que desafiam o que parecia estar sob controle

Quebra de Protocolo, da autora Juliana Rondon, é uma obra de romance contemporâneo que parte de uma protagonista acostumada a confiar nas próprias decisões para explorar aquilo que acontece quando sentir deixa de ser algo facilmente administrável. Angela Davis é independente, disciplinada e focada na carreira. Jax surge como um encontro inesperado, mas a relação entre os dois não se desenvolve como uma disputa entre amor e autonomia. O conflito está em outra parte: na vulnerabilidade necessária para reconhecer um sentimento intenso e permitir que ele encontre espaço em uma vida adulta já construída.

Essa diferença é importante porque particulariza Angela dentro da história. Ela não precisa escolher entre continuar sendo uma mulher ambiciosa ou viver um relacionamento. Apaixonar-se não corrige sua independência nem exige que ela diminua seus objetivos. O que muda é sua disposição para admitir que nem tudo pode ser organizado antecipadamente.

E Quebra de Protocolo começa a preparar essa ideia antes mesmo de Angela e Jax realmente se conhecerem.

Antes do encontro, os olhos

Os sonhos que Angela e Jax têm com os olhos um do outro criam uma expectativa que encontra sua resposta quando finalmente se veem. Existe uma sensação de destino possível nessa construção, mas o recurso também prepara algo mais concreto: a intensidade imediata da atração e da conexão entre eles.

Essa dimensão emocional ganha um recurso adicional ao longo do livro: Quebra de Protocolo possui uma trilha sonora sugerida pela própria autora, com faixas escolhidas para momentos específicos da narrativa. As músicas foram pensadas a partir das letras, melodias e emoções de cada cena, formando um arco sonoro que acompanha as mudanças vividas pelos personagens. Por isso, elas não aparecem apenas como ambientação: ajudam a traduzir diferentes estágios da relação de Angela e Jax e também outros vínculos importantes da história.

Esse diálogo começa logo no primeiro capítulo. “Flow”, de Sade, acompanha a primeira dança de Angela e Jax, prolongando com sua suavidade a sensação de conexão daquele encontro. Em seguida, “Addicted”, de Jon Vinyl, desloca essa energia para o desejo impulsivo da primeira noite. A trilha já começa a revelar uma transformação: primeiro o reconhecimento, depois uma atração que chega antes de qualquer tentativa de explicá-la.

Isso ajuda a entender por que a relação começa tão intensa sem reduzir essa intensidade a uma paixão instantânea sem desenvolvimento. O livro estabelece cedo a força da conexão para depois investigar o que duas pessoas adultas farão com ela.

Angela, Jax e aquilo que não cabe no controle

Angela me interessou justamente porque o romance não precisa desmontar sua personalidade para transformá-la. Sua inteligência, determinação e compromisso com a carreira permanecem relevantes quando Jax entra em sua vida. A vulnerabilidade que surge não contradiz sua força; apenas revela uma dimensão que o controle não consegue resolver sozinho.

Jax percorre um movimento diferente. Por trás de sua segurança existem dores, conflitos familiares e dificuldade para se permitir amar novamente. A relação com Angela o coloca diante da possibilidade de confiar e recomeçar.

Essa diferença entre os dois produz uma dinâmica interessante. Em determinados momentos, eles tentam manter sentimentos e desejo dentro de limites aparentemente administráveis. “Tell Me”, de Usher, acompanha justamente um desses limiares, quando o desejo avança antes da razão. Já “Since I Seen’t You”, de Anthony Hamilton, trabalha o contraste entre a fachada profissional e aquilo que está acontecendo internamente.

A trilha sonora, portanto, não funciona como uma playlist acrescentada ao romance. As músicas acompanham mudanças específicas na relação e formam um arco paralelo ao emocional dos personagens.

A Chess impede que o romance exista em uma bolha

A presença da Chess é outro aspecto que dá consistência à proposta. Competição entre estagiários, pressão profissional e ambição continuam existindo enquanto Angela se apaixona. Isso é essencial para uma personagem cuja identidade está tão relacionada às próprias escolhas e à carreira.

O amor não suspende o restante de sua vida. Essa construção permite que Quebra de Protocolo trate relacionamento adulto dentro de uma realidade em que trabalho, amizades, família e conflitos continuam exigindo atenção. Até a vulnerabilidade assume formas diferentes conforme essas relações aparecem.

Depois de Angela quase ser atacada, por exemplo, “Speak Now”, de Leslie Odom Jr., acompanha a passagem do pânico para o acolhimento de Jax. Em outro registro, “Call Your Name”, de Tora-i, aparece ligada à amizade entre Angela e Kat, destacando uma presença que não tenta solucionar a dor, mas permanece ao lado dela.

São vínculos diferentes, e o livro permite que cuidado e afeto não pertençam exclusivamente ao casal principal.

Intensidade não é o mesmo que maturidade

Talvez o aspecto mais interessante da evolução de Angela e Jax seja perceber que o relacionamento não perde intensidade quando amadurece. Ele ganha outras formas de sustentação.

“Un-thinkable (I’m Ready)”, de Alicia Keys, marca bem essa passagem porque a entrega já não nasce somente do impulso. Existe uma decisão consciente de aceitar um sentimento que antes parecia difícil de acomodar. Mais adiante, quando a relação enfrenta uma ruptura, “Sorry”, de Kiara Shereen, acompanha a mágoa de Angela, enquanto “Can’t Be Without You”, de Lenny Kravitz, se relaciona à percepção de Jax sobre a profundidade do que sente.

Assim, confiança, parceria e compromisso não substituem o desejo que marcou o começo. Eles se somam a ele.

Até o conflito envolvendo Brandon segue uma lógica semelhante de amadurecimento. Seu sentimento por Angela poderia servir apenas para criar rivalidade, mas a situação é conduzida por meio de limites claros. Angela sabe o que sente, Brandon precisa aceitar essa realidade e a relação entre os irmãos encontra espaço para reconstrução. “Another Day”, de Buckshot LeFonque, reforça justamente essa despedida sem transformar a dor de Brandon em ressentimento obrigatório.

Quando o amor passa a caber no cotidiano

Um dos movimentos mais bonitos do romance está na passagem dos grandes conflitos para momentos em que Angela e Jax conseguem existir juntos de maneira mais cotidiana.

“Fool For You”, de CeeLo Green com Melanie Fiona, acompanha Angela de camiseta velha, faxinando e cantando desafinadamente quando é observada por Jax. Depois de tanta intensidade, há algo significativo em permitir que o amor também apareça nessa versão desarmada e comum da vida.

O pedido de casamento aprofunda essa transformação. “Dandelion”, de Tevin Campbell, acompanha a vulnerabilidade de Jax ao finalmente entregar o coração e verbalizar o desejo de construir uma vida com Angela. O bonsai oferecido por ela acrescenta intimidade ao momento porque demonstra conhecimento e cuidado, tornando o gesto particular à história dos dois.

Quando chegam aos votos, “Is This Love”, na interpretação de Allen Stone, retoma aquela promessa sugerida desde os primeiros encontros. Já “Drowning In Your Eyes”, de Ephraim Lewis, recupera desejo e vulnerabilidade como elementos que atravessaram toda a relação. O elemento musical acompanha, assim, o próprio arco amoroso: atração, impulso, contenção, entrega, ruptura, reconhecimento e compromisso.

No epílogo, “Simply Beautiful”, de Ben L’Oncle Soul, amplia essa sensação para a família que Angela e Jax estão construindo.

Quebra de Protocolo funciona justamente porque não trata o amor como recompensa pela renúncia à individualidade. Angela continua sendo Angela enquanto aprende a admitir sua vulnerabilidade; Jax precisa abrir espaço para confiança e compromisso; e a intensidade que aproxima os dois no começo encontra, ao longo da história, outras maneiras de permanecer.

Para quem aprecia romances contemporâneos com personagens adultos, vida profissional integrada ao conflito, relações complexas e uma trilha sonora pensada como extensão emocional da narrativa, Juliana Rondon constrói uma história em que quebrar o protocolo não significa abandonar quem se é. Significa descobrir que até uma vida cuidadosamente planejada pode comportar algo que não estava previsto.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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