Juliana Rondon: conheça a autora que aposta em personagens imperfeitos para construir romances sobre escolhas e relações

Nascida em Antonina, no litoral do Paraná, e radicada em Curitiba há quase três décadas, Juliana Rondon construiu sua relação com a escrita muito antes de imaginar que publicaria um livro. 

Na adolescência, experimentou a poesia e chegou a rascunhar um pequeno romance. O texto acabou perdido durante uma mudança e, com o passar dos anos, a escrita foi cedendo espaço às outras demandas da vida. A leitura, entretanto, permaneceu presente e seria justamente ela a responsável por aproximá-la novamente da criação literária.

Sua estreia como autora aconteceu em 2026, com a publicação independente de Quebra de Protocolo, romance contemporâneo desenvolvido a partir de uma retomada da escrita durante a pandemia. O livro colocou em circulação uma história que inicialmente não havia sido pensada para publicação e abriu caminho para outros projetos que começaram a surgir ainda durante a construção do próprio manuscrito.

Uma relação antiga com as palavras

Muito antes de Quebra de Protocolo, Juliana já escrevia. Desde cedo, encontrou nas palavras uma maneira de registrar percepções. Não mantinha exatamente um diário, mas tinha o hábito de colocar no papel aquilo que observava e sentia, seus desejos, angústias e impressões sobre o mundo.

Durante o isolamento da pandemia, Juliana passou mais tempo entre livros. Com a leitura, reapareceu também a vontade de escrever. Começou, então, a desenvolver Quebra de Protocolo. Naquele momento, não existia planejamento de carreira literária nem intenção de publicação. O manuscrito era um projeto pessoal, desenvolvido pelo prazer de voltar a criar suas próprias histórias.

Essa perspectiva começou a mudar conforme a narrativa avançava. Juliana percebeu que o universo que estava construindo oferecia possibilidades que ultrapassavam a trajetória de seus protagonistas. Personagens inicialmente ligados à história principal despertavam curiosidade, algumas relações pareciam comportar novos pontos de vista e outras narrativas começaram a surgir dentro daquele mesmo espaço ficcional.

A vontade de compartilhar Quebra de Protocolo veio durante esse processo e, posteriormente, transformou-se na decisão de publicar o romance de maneira independente. Ao mesmo tempo, aquelas possibilidades percebidas durante a escrita começaram a formar o que hoje Juliana chama de Universo QdP.

Personagens que não precisam acertar sempre

Essa expansão está diretamente relacionada ao aspecto que mais interessa à autora durante a construção de uma história: as pessoas que a habitam.

Juliana prefere personagens capazes de conquistar o leitor pela personalidade e pelas relações que estabelecem, sem a necessidade de transformá-los em figuras idealizadas. Eles podem errar, agir impulsivamente, mudar de opinião e tomar decisões ruins. O fundamental é que exista uma lógica emocional sustentando essas atitudes. A coerência, portanto, não significa perfeição.

Atualmente, é no romance contemporâneo que Juliana encontra maior liberdade para explorar essas contradições. Mesmo quando o relacionamento amoroso ocupa o centro do enredo, seus protagonistas continuam envolvidos com amigos, família, trabalho, responsabilidades e conflitos particulares.

Essa compreensão foi decisiva para a própria concepção de Quebra de Protocolo. Antes mesmo de Angela e Jax estarem completamente definidos, Juliana sabia qual relação gostaria de investigar.

Um romance sobre duas pessoas que se acrescentam

A ideia inicial era escrever sobre duas pessoas que não precisassem se completar para construir uma relação.

Para Juliana, depositar no parceiro a responsabilidade de preencher ausências ou tornar alguém inteiro cria uma expectativa problemática sobre o amor. Pessoas podem se apoiar, provocar mudanças e participar da reconstrução uma da outra, mas continuam responsáveis pelas próprias trajetórias. Foi a partir dessa perspectiva que Angela e Jax ganharam forma.

Ambientado em Nova York, Quebra de Protocolo acompanha personagens entre os 20 e 30 anos e aborda vínculos afetivos a partir de uma perspectiva adulta sobre escolhas e consequências. O romance do casal é um dos principais eixos, mas as relações familiares, profissionais e de amizade interferem diretamente nas decisões tomadas ao longo da narrativa.

A obra também trabalha autonomia e amizade feminina e incorpora questões como racismo e abuso emocional sem permitir que esses temas reduzam os personagens a uma única característica.

Sensualidade como extensão da intimidade

Outro componente importante da escrita de Juliana está na maneira como trabalha a sensualidade.

A autora não adota necessariamente o recurso conhecido como “portas fechadas”, no qual a narrativa interrompe ou omite cenas íntimas. Isso, porém, não significa que seu interesse esteja na descrição gráfica do ato sexual. Sua atenção permanece voltada às pessoas envolvidas.

Sensações, emoções, hesitações e reações ganham maior importância porque uma cena íntima também pode revelar aspectos da personalidade, modificar uma relação ou mostrar vulnerabilidades que os personagens dificilmente demonstrariam em outras circunstâncias.

A intensidade de cada passagem depende, portanto, da necessidade da própria história. Para Juliana, a sensualidade funciona melhor quando contribui para compreender o vínculo entre os personagens, e não quando existe apenas como elemento independente do desenvolvimento emocional.

Nova York e as histórias que encontram seu lugar

O processo criativo de Quebra de Protocolo também mostra que Juliana não desenvolve suas narrativas de maneira completamente linear.

Ela conhecia o percurso principal do romance, mas vários elementos apareceram enquanto escrevia.

Nova York, por exemplo, surgiu a partir de uma memória visual. Embora nunca tenha acompanhado Sex and the City, Juliana recordava algumas cenas externas da série, especialmente a imagem de duas amigas caminhando pela cidade. Quando Angela e Kat começaram a ganhar forma, aquela referência finalmente encontrou espaço dentro da narrativa.

O mesmo acontece com outras ideias: uma cena pode surgir muito antes de a autora saber onde utilizá-la.

Os diálogos são igualmente importantes nesse processo. Juliana observa não apenas aquilo que seus personagens dizem, mas o que evitam dizer e como reagem uns aos outros. Muitas relações são construídas justamente nessa distância entre a fala e aquilo que permanece subentendido.

A música chega depois da cena

A música também participa da experiência narrativa, embora não seja normalmente o ponto de partida da criação.

Primeiro Juliana escreve a situação e compreende o momento vivido pelos personagens. Depois, especialmente em passagens emocionalmente intensas, procura uma canção capaz de conversar com aquela atmosfera.

A relação ganhou espaço suficiente para que Quebra de Protocolo trouxesse um capítulo dedicado à trilha sonora, com playlists disponíveis no YouTube e no Deezer. Sade, Erykah Badu e Lenny Kravitz estão entre os artistas selecionados.

Um universo que cresceu durante a escrita

Foi enquanto ainda desenvolvia Quebra de Protocolo que Juliana percebeu que alguns personagens e relações possuíam histórias que não caberiam no romance.

Assim começou a surgir o Universo QdP.

A proposta não é criar uma sequência convencional, mas desenvolver narrativas independentes que se cruzam em determinados momentos. Cada obra poderá ser lida separadamente, enquanto quem acompanhar o conjunto encontrará personagens e conexões reaparecendo sob outras perspectivas.

Alguns desses textos já estão em revisão, ainda sem datas de lançamento. Paralelamente, Juliana desenvolve um projeto diferente, atualmente em estágio inicial.

O romance contemporâneo continua sendo seu território mais confortável, mas ela não pretende transformá-lo em limite. Se uma nova história exigir outro gênero, existe disposição para acompanhá-la. 

O compromisso que Juliana Rondon pretende levar de Quebra de Protocolo para os próximos trabalhos está menos em repetir determinada estrutura e mais em aprofundar aquilo que despertou seu interesse desde o início: criar personagens reconhecíveis em suas contradições, capazes de tomar decisões questionáveis, rever certezas e assumir consequências. Humanos e imperfeitos, mas sempre coerentes com a história que construíram até ali.

Siga a autora no Instagram e fique por dentro de todas as novidades.

Tagged:
Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts