Antes de Esquecer Quem Sou, de C.F. Collares, é uma reflexão sensível sobre memória e identidade
A memória costuma ser tratada como um arquivo onde guardamos o passado. Em Antes de Esquecer Quem Sou, C.F. Collares parte justamente da desconstrução dessa ideia para construir um romance profundamente humano. Seu protagonista dedicou toda a vida ao estudo da memória, ensinando que recordar nunca é apenas recuperar fatos, mas reconstruí-los continuamente. O paradoxo que move a narrativa é devastador: o homem que passou décadas explicando a fragilidade das lembranças agora vê a própria mente começar a falhar.
É desse conflito que nasce um livro que ultrapassa a neurociência para alcançar questões muito mais universais. O romance fala sobre medicina, formação acadêmica, amizade, luto e amor, mas, sobretudo, investiga como construímos nossa identidade e o que permanece quando já não conseguimos confiar nas nossas recordações.
Um homem escrevendo contra o próprio desaparecimento
Existe algo profundamente comovente na escolha narrativa de Collares. Em vez de acompanhar apenas a progressão da doença, acompanhamos alguém escrevendo para impedir que o esquecimento apague aquilo que considera essencial.
Sentado diante de sua escrivaninha, com o rio como testemunha silenciosa, o protagonista revisita pessoas que moldaram sua trajetória. Cada lembrança registrada funciona como uma tentativa de preservar não apenas acontecimentos, mas aquilo que essas relações deixaram dentro dele.
Essa estrutura transforma o romance em muito mais do que uma sucessão de memórias. É uma reflexão constante sobre o próprio ato de lembrar. Se toda lembrança já nasce modificada pelo tempo, quanto dela continua sendo verdade? E até que ponto nossa identidade depende dessas versões que contamos para nós mesmos?
A narrativa conduz essas perguntas com delicadeza, sem oferecer respostas fáceis. Pelo contrário, convida o leitor a permanecer nesse espaço de dúvida, onde ciência e emoção caminham lado a lado.
Personagens que permanecem muito depois da última página
Boa parte da força emocional do romance está na construção de seus personagens. A relação entre o protagonista e Hendrik é, sem dúvida, uma das mais bonitas da obra. O professor que um dia coloca um cérebro humano em suas mãos representa muito mais do que um mentor acadêmico. Ele simboliza a descoberta de uma forma de ensinar baseada na curiosidade, na generosidade e na compreensão de que conhecimento só ganha sentido quando transforma quem aprende.
A admiração entre mestre e discípulo nunca soa idealizada. Ela é construída a partir de gestos, conversas e exemplos silenciosos, mostrando como algumas pessoas continuam vivendo dentro de nós muito tempo depois de deixarem de ocupar nosso cotidiano.
Casper e Eline também enriquecem profundamente a narrativa. Cada um representa maneiras distintas de lidar com excelência, fracasso e pertencimento. Suas trajetórias ampliam a discussão sobre sucesso profissional e revelam como a busca incessante pela perfeição pode esconder fragilidades que raramente encontram espaço para existir.
São personagens que não servem apenas para movimentar a trama. Eles ampliam as reflexões propostas pelo romance e fazem com que cada encontro carregue consequências emocionais duradouras.
Muito além da medicina e da neurociência
Embora o conhecimento científico esteja presente durante toda a narrativa, Antes de Esquecer Quem Sou jamais se transforma em um romance técnico.
A medicina aparece como espaço de formação humana antes de ser apenas um campo de conhecimento. As discussões sobre neurociência dialogam naturalmente com questões filosóficas e emocionais, tornando conceitos complexos acessíveis sem simplificá-los.
Um dos aspectos mais marcantes do livro é sua crítica ao perfeccionismo. O romance questiona a lógica que leva tantas pessoas a acreditarem que só merecem existir quando alcançam um padrão impossível de excelência.
Essa reflexão atravessa diferentes personagens e ganha ainda mais força ao mostrar os efeitos silenciosos da cobrança constante, da necessidade de provar competência e do medo permanente de falhar.
É impossível acompanhar essas páginas sem pensar na forma como nossa sociedade mede valor humano quase exclusivamente pelo desempenho.
O esquecimento como experiência profundamente humana
Quando a demência passa a ocupar o centro da narrativa, o romance evita qualquer dramatização excessiva.
O que emociona não são apenas as perdas cognitivas, mas a maneira como elas obrigam o protagonista a reconstruir continuamente quem acredita ser.
A pergunta que acompanha toda a obra “quem somos quando começamos a esquecer?” nunca recebe uma resposta puramente científica.
Pouco a pouco, o livro conduz o leitor para outra compreensão de identidade. Talvez não sejamos apenas aquilo que conseguimos recordar. Talvez também sejamos aquilo que permanecemos despertando nas pessoas que encontramos pelo caminho.
Essa mudança de perspectiva torna a leitura profundamente tocante. O romance deixa de falar apenas sobre memória para falar sobre legado.
Não o legado das grandes conquistas, mas dos gestos cotidianos de cuidado, das palavras que transformam vidas e dos ensinamentos que continuam existindo mesmo quando seus autores já não conseguem reconhecê-los.
Um final que permanece na memória
Os capítulos finais carregam uma força emocional rara. O epílogo reúne todas as reflexões construídas ao longo da narrativa sem recorrer ao sentimentalismo fácil. Pelo contrário, sua delicadeza torna tudo ainda mais impactante.
Ao revisitar Hendrik, os afetos construídos ao longo da vida e o avanço inevitável do esquecimento, C.F. Collares oferece uma conclusão contemplativa, capaz de permanecer ecoando muito depois da última página.
É um encerramento que transforma toda a leitura em uma reflexão sobre aquilo que realmente deixamos no mundo.
No fim, talvez nossa permanência não esteja nas lembranças perfeitas que preservamos, mas na maneira como ajudamos outras pessoas a construir suas próprias histórias.
Uma escrita elegante e profundamente sensível
Outro grande mérito do romance está em sua linguagem. C.F. Collares escreve com elegância, equilíbrio e enorme sensibilidade. Sua prosa consegue unir ciência, filosofia e emoção de maneira extremamente natural, sem que nenhum desses elementos se sobreponha aos demais.
Cada capítulo parece cuidadosamente construído para convidar o leitor não apenas a acompanhar uma história, mas a interromper a leitura por alguns instantes e refletir sobre aquilo que acabou de ler. Essa escrita contemplativa faz com que até os momentos mais silenciosos carreguem significado.
Ao terminar Antes de Esquecer Quem Sou, fica a sensação de ter encontrado uma narrativa que ultrapassa seu próprio enredo. Mais do que contar a história de um cientista enfrentando a perda da memória, C.F. Collares constrói uma reflexão emocionante sobre identidade, ensino, amor, amizade e legado.
É um romance para quem aprecia literatura sensível, personagens profundamente humanos e histórias que permanecem vivas muito depois da última página. Acima de tudo, é um livro que lembra que nossa existência talvez não dependa apenas daquilo que conseguimos recordar, mas também do cuidado, do conhecimento e do afeto que deixamos existir nas vidas que tocamos.
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