40 Haikais, de Helio Plapler, é uma obra poética contemplativa sobre natureza, tempo e as diferentes estações da vida
40 Haikais, de Helio Plapler, organiza sua proposta poética a partir de uma estrutura simples e significativa: quarenta poemas distribuídos pelas quatro estações do ano. Primavera, verão, outono e inverno não aparecem apenas como divisões do livro. À medida que os versos avançam, elas também acompanham infância, juventude, maturidade e senescência, aproximando os ciclos da natureza das transformações da existência humana.
Antes dos poemas, Plapler dedica uma introdução à tradição do haikai. Recupera suas origens japonesas, menciona a relação com a tanka e a renga e passa por nomes como Matsuo Bashô, Masaoka Shiki e Hidekazu Masuda, o Mestre Goga, importante para a difusão do haikai no Brasil. O autor também explica conceitos como kiru, o corte que aproxima imagens ou ideias, e kigô, termo associado às estações.
Essa introdução esclarece ainda sua própria escolha estética. Plapler afirma que mantém aspectos da forma, do ritmo e, principalmente, da construção imagética do haikai, mas se permite algumas variações, como o uso de títulos e de termos sazonais que não estão necessariamente nas relações tradicionais de kigôs. Dessa maneira, o livro apresenta sua relação com a tradição sem esconder as liberdades assumidas pelo poeta.
Da aurora à infância
A primavera abre o conjunto e estabelece uma atmosfera de nascimento, movimento e descoberta. “Aurora”, primeiro poema, reúne céu, voo e restos de luar em uma imagem de passagem. Logo depois surgem névoa, flor, abelha, campo, andorinha, rosa, borboleta, chuva e orvalho.
São elementos concretos da natureza, mas a sequência não permanece restrita à paisagem. O décimo haikai, “Infância”, encerra essa primeira estação colocando passado, presente e futuro sob a perspectiva de quem ainda está começando a viver: “Nada foi ontem / Só alegria hoje / Tudo é amanhã.”
A posição do poema dentro da estrutura amplia seu sentido. Depois das imagens de florescimento da primavera, a infância aparece como uma etapa marcada pelo presente e pela abertura para aquilo que ainda virá. A associação entre estação e idade da vida começa, então, a ficar mais evidente.
O verão e a intensidade do presente
No verão, a paisagem muda. Mar, areia, sol, viagem e desejo passam a ocupar os versos. “Baixa-mar” aproxima poesia e caminhada ao mencionar Camões; “Poente” leva o sabor do sal até a imagem do sol; “Praia” concentra oceano, corpo e luminosidade.
Também é nessa parte que sentimentos como esperança e amor ganham presença direta. Em “Desejo”, olhos, lenha em brasa e vermelho carmim criam uma imagem mais quente, coerente com a própria estação. Já “Amor” reúne sol, perfume e leveza.
O bloco termina com “Juventude”, que retoma a construção temporal usada anteriormente em “Infância”, mas modifica completamente sua percepção: “Ontem foi pouco / Hoje tudo acontece / Nada é amanhã.”
Se na infância tudo apontava para o futuro, aqui o presente ocupa quase todo o espaço. A juventude é apresentada por meio dessa urgência do agora, fazendo com que a organização do livro revele um diálogo entre poemas separados por várias páginas.
Quando as folhas passam a guardar memórias
O outono altera novamente o tom. A primeira imagem é a de uma pena e uma pétala caindo enquanto o coração chora. Depois vêm folhas pisadas, vento, mudança da terra, memória e distância.
É uma estação muito ligada ao que permanece depois da passagem. “Amigos” coloca folhas caídas no caminho da vida ao lado da “doce memória”. “Querência” trabalha a distância e a impossibilidade da volta. Em “Percepção”, as lembranças surgem acompanhadas pelo pensamento que se perde e pelo frio interior.
O tempo deixa de ser apenas parte da paisagem e se torna assunto explícito. No haikai que recebe justamente o título “Tempo”, ele aparece como alguém que caminha lentamente, procura aquilo que já não encontra e acaba correndo perdido.
“Maturidade” fecha essa terceira parte e, novamente, conversa com “Infância” e “Juventude”: “Ontem foi tudo / Hoje tranquilidade / Perto o amanhã.” Agora existe um passado que pesa na percepção do presente, enquanto o futuro parece muito mais próximo.
O inverno e a consciência da ausência
No último conjunto, o vocabulário se torna mais frio e marcado pela perda. Neve, gelo, silêncio, solidão e despedida dividem espaço com raiva, tristeza, saudade e lágrima.
Em “Perda”, a terra esconde aquilo que o eu poético procura enquanto a neve cobre a paisagem. “Despedida” combina gelo, silêncio e uma longa viagem. “Raiva” escolhe a imagem de um vulcão extinto cuja lava esfria no peito. Já “Saudade” encontra sua figura em algo extremamente frágil: uma bolha de sabão cujo equilíbrio se rompe.
O encerramento acontece com “Senescência”, completando a correspondência entre as quatro estações e os ciclos humanos. Dessa vez, a fórmula temporal chega ao seu ponto mais austero: “Ontem tranquilo / Hoje são recordações / Amanhã, nada.”
Lido depois de “Infância”, “Juventude” e “Maturidade”, o poema ganha uma força que dificilmente teria isoladamente. O livro construiu, ao longo de quarenta peças breves, uma percepção progressiva da passagem do tempo.
Quarenta poemas para ler sem pressa
A concisão de 40 Haikais não significa ausência de percurso. Helio Plapler usa imagens recorrentes de aves, flores, folhas, céu, água, vento e neve para acompanhar mudanças externas e interiores. A natureza funciona simultaneamente como matéria observada e como linguagem para falar de desejo, amizade, memória, perda e envelhecimento.
É uma obra que pode interessar tanto a leitores já familiarizados com o haikai quanto àqueles que desejam conhecer essa forma poética. A introdução oferece contexto para a leitura, enquanto os poemas mostram como Plapler dialoga com essa tradição a partir de escolhas próprias.
Da aurora da primavera à senescência do inverno, 40 Haikais encontra unidade justamente na passagem: muda a estação, muda a idade, muda o olhar. E, em apenas três versos de cada vez, o leitor acompanha aquilo que floresce, amadurece, cai e finalmente permanece como recordação.
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