Os poemas que não foram ditos, da autora K. L. Marquezzini, é um romance sensível e cativante
Em Os poemas que não foram ditos, há algo profundamente íntimo em acompanhar Leonardo. Não porque ele se exponha demais, pelo contrário. Ele é do tipo que observa, absorve, guarda. Desde a perda do pai, ainda muito jovem, sua vida parece ter sido empurrada para um lugar de silêncio constante. A mudança para Campo Grande não é apenas geográfica; é como se ele tivesse sido deslocado também dentro de si.
A autora K. L. Marquezzini constrói esse início com uma delicadeza que não chama atenção de imediato, mas envolve. Leonardo não é apresentado como alguém que sofre de forma explícita. Sua dor aparece nos detalhes: na forma como ele se coloca sempre à margem, na maneira como parece assistir à própria vida acontecer sem realmente ocupá-la. E é justamente aí que a história começa a ganhar corpo.
Matteo: luz que também cansa
Matteo entra na narrativa como um contraste quase inevitável. Ele ocupa espaços com facilidade, tem um sorriso que parece resolver pequenas tensões e uma leveza que, à primeira vista, soa inabalável. Mas há algo na forma como essa luz é descrita que já sugere esforço. Não é uma felicidade simples.
Leonardo percebe isso antes de qualquer outra pessoa. Nos gestos, nos silêncios entre uma risada e outra, nos momentos em que Matteo parece escapar por segundos de si mesmo. É nesse olhar atento, quase silencioso, que a conexão entre os dois começa a se formar.
Não há pressa. Não há grandes acontecimentos iniciais. Apenas dois meninos dividindo espaços comuns: o condomínio, a escola, os dias que passam sem grandes promessas. E, ainda assim, algo começa a se mover.
Um encontro que não pede permissão
O vínculo entre Leonardo e Matteo nasce de forma gradual, quase imperceptível. Primeiro como amizade, depois como um reconhecimento mais profundo, daqueles que não precisam ser explicados. Há uma troca que acontece no nível do cuidado, do olhar, da presença. É bonito acompanhar esse processo porque ele não é idealizado.
Matteo, que parece tão inteiro para o mundo, carrega dentro de casa uma realidade dura. Uma família marcada por rigidez, por crenças que não abrem espaço para quem ele é. O pai, especialmente, representa esse lugar de negação e violência emocional, não necessariamente explícita o tempo todo, mas constante o suficiente para moldar silêncios e medos.
Enquanto isso, Leonardo vive o oposto: uma mãe que acolhe, que entende, que não transforma o amor em condição. Esse contraste não é usado de forma superficial. Ele atravessa a narrativa com força, mostrando o quanto o ambiente pode influenciar a forma como alguém se vê ou se esconde.
Amar também é enfrentar
Quando o romance entre eles começa a tomar forma, há um cuidado visível na escrita. Nada acontece de forma abrupta. É um sentimento que cresce nos intervalos, nas conversas, nos momentos compartilhados que, à primeira vista, parecem simples. Mas não são.
Há uma cena implícita constante: Matteo se permitindo existir um pouco mais, Leonardo aprendendo a ocupar mais espaço dentro da própria história. Um puxa o outro, mesmo sem perceber totalmente. E ainda assim, o livro não transforma esse amor em solução.
Existem barreiras. Medos que não desaparecem só porque existe afeto. Situações que exigem mais do que coragem; exigem ruptura. E nem sempre isso vem no tempo que se espera.
A autora trata tudo isso com uma sensibilidade que evita dramatizações excessivas. A dor está ali, mas ela não é explorada de forma sensacionalista. Ela é vivida.
A força da representatividade
Um dos aspectos mais marcantes da obra é a forma como a representatividade LGBTQIAPN+ é construída. Não há discursos forçados ou tentativas de ensinar o leitor de maneira direta. O que existe são vidas acontecendo. E isso, por si só, já é potente.
Ver Matteo lidando com a rejeição dentro de casa, enquanto Leonardo encontra acolhimento na própria família, cria um contraste que não permite romantizações. O livro não suaviza essa realidade. Ele mostra o quanto ainda é difícil, o quanto ainda dói, e o quanto isso impacta diretamente na forma como alguém se permite amar.
Existem momentos que pesam. Que incomodam. Que fazem lembrar que essa história, apesar de ficcional, está muito próxima de muitas vidas reais.
Uma escrita que se sente no corpo
A narrativa de K. L. Marquezzini tem um ritmo próprio. Há uma musicalidade nas frases, uma construção quase poética que não torna a leitura pesada, mas sensorial. É o tipo de escrita que não depende apenas do que está sendo dito, mas de como.
Algumas cenas parecem mais sugeridas do que descritas, e isso cria um espaço interessante para o leitor preencher com suas próprias emoções. Há trechos que ficam, não pela grandiosidade, mas pela forma como capturam algo muito específico; um gesto, um olhar, um momento de hesitação. E são esses detalhes que fazem a história ganhar força.
Nem todo final é sobre permanecer
O desfecho de Os poemas que não foram ditos não chega com facilidade. Ele não entrega aquilo que, talvez, uma parte do leitor espere. E é justamente por isso que ele funciona.
Há uma sensação de quebra, de deslocamento, de algo que não se resolve completamente. Mas, ao mesmo tempo, existe compreensão.
O livro não está interessado em finais confortáveis. Ele fala sobre encontros que transformam, mesmo quando não permanecem da forma que gostaríamos. Sobre amores que não deixam de existir só porque mudam de forma. Sobre tudo aquilo que continua, mesmo quando já não pode ser vivido do mesmo jeito.
O que fica depois da última página
Ao terminar a leitura, o que permanece não é apenas a história de Leonardo e Matteo, mas a sensação de ter acompanhado algo muito humano.
As inseguranças, os silêncios, os pequenos avanços, as dores que não são ditas; tudo isso constrói uma narrativa que toca sem precisar elevar o tom.
É um livro que fala sobre amor, mas não apenas no sentido romântico. Fala sobre pertencimento, sobre identidade, sobre o quanto ser visto pode mudar tudo, e o quanto não ser também.
E talvez o título faça ainda mais sentido depois de tudo: existem sentimentos que nunca encontram palavras completas. Eles ficam ali, suspensos, atravessando a gente de formas que nem sempre sabemos explicar. Mas ainda assim, permanecem dentro de nós.
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