Morro das Almas, de Cristiane de Souza, é uma obra que transforma memória em denúncia e faz isso sem perder a delicadeza que atravessa toda a narrativa

Muitos livros tentam falar sobre a favela observando de fora. Morro das Almas, da Cristiane de Souza, faz o contrário: ele nasce de dentro. E isso muda absolutamente tudo.

Desde as primeiras páginas, a autora constrói uma narrativa que não romantiza a pobreza, mas também não reduz a comunidade apenas à violência. O Morro das Almas é um espaço de medo, sim, mas também de afeto, de infância, de sobrevivência e de vínculos que insistem em existir apesar de tudo.

Janaína, protagonista e voz que conduz a história, cresce cercada por tiros, sangue e silêncios forçados, mas também por histórias contadas pela mãe, brincadeiras com o irmão, cachorros, pintinhos e pequenos momentos de felicidade que sobrevivem em meio ao caos.

Uma infância atravessada pelo medo

Janaína narra suas memórias com um olhar que mistura sensibilidade infantil e consciência adulta. Ela relembra a infância no Morro das Almas como quem tenta organizar fantasmas antigos. As “almas” do título não são apenas mortos, são lembranças que continuam presas nela, experiências que jamais puderam ser esquecidas.

Uma das cenas mais marcantes do livro acontece quando Janaína, ainda criança, troca garrafas por pintinhos junto da mãe e do irmão. O momento, inicialmente cheio de alegria simples e genuína, é interrompido por um confronto armado entre traficantes. Crianças e mães se escondem numa casa improvisada enquanto tiros ecoam do lado de fora. Depois, ao saírem, precisam atravessar corpos caídos no chão e pisar em sangue para conseguir voltar para casa.

A força dessa passagem não está apenas na brutalidade da situação, mas na forma como ela é narrada. Janaína não descreve o horror buscando choque gratuito. O impacto vem justamente da percepção infantil tentando entender aquilo tudo. Ela segura um pintinho no colo enquanto reza para sobreviver. Observa a luz entrando pela fresta da porta enquanto mulheres usam os próprios corpos para proteger os filhos. É impossível não sentir o peso dessa memória.

O silêncio também é violência

Um dos aspectos mais fortes do livro é a maneira como Cristiane de Souza trabalha o silenciamento imposto aos moradores da favela. Em vários momentos, Janaína escuta frases como “Você não viu nada”, “Não fala nada” ou “Engole o choro”.

Existe um abandono brutal atravessando essas páginas.

A polícia aparece apenas para recolher corpos. A imprensa chega atrás de manchetes. Mas ninguém realmente quer ouvir aquelas pessoas. O morro parece existir fora da ideia de cidadania, como se a violência ali fosse esperada, aceitável ou inevitável.

E Janaína percebe isso ainda muito pequena.

Por isso, a escrita surge como necessidade. Não como vaidade literária, mas como sobrevivência emocional. Há um momento muito bonito em que ela entende que aprender a ler e escrever talvez fosse a única forma de impedir que aquelas memórias morressem sufocadas dentro dela.

Escrever vira resistência.

Uma protagonista profundamente humana

Janaína é uma personagem difícil de esquecer porque ela nunca é construída como heroína idealizada. Ela é sensível, medrosa, intensa, observadora e, muitas vezes, tomada por raiva e tristeza. Enquanto o irmão Jorge é expansivo e sociável, Janaína reage ao mundo tentando compreendê-lo. Ela sente tudo demais. Absorve dores que talvez nem consiga nomear ainda.

A relação entre os dois irmãos é um dos pontos emocionais mais fortes da obra.

Existe uma proteção mútua muito bonita ali. Jorge segura sua mão durante tiroteios, tenta fazê-la rir quando ela está assustada, ajuda a cuidar dela quando adoece. Em meio a um ambiente tão hostil, esse vínculo funciona quase como um refúgio emocional.

E é bonito perceber como a autora consegue construir afeto sem transformar a narrativa em algo leve demais. O carinho entre eles não apaga o medo constante de morrer.

A crueldade cotidiana

O livro também incomoda porque mostra como a violência se infiltra em situações aparentemente comuns. Não se trata apenas de tráfico ou confronto armado. Existe brutalidade dentro das famílias, nas relações, nas ausências.

O pai de Janaína é uma figura profundamente frustrante. Um homem irresponsável, ausente e cruel em pequenas atitudes diárias. A mãe, Jurema, carrega praticamente sozinha o peso da sobrevivência da família, trabalhando incessantemente enquanto tenta proteger os filhos emocionalmente da realidade ao redor.

Há também episódios difíceis de esquecer, como a morte do cachorro Bola de Neve, agredido brutalmente por uma criança enquanto adultos relativizam o ocorrido dizendo ser “coisa de criança”.

Essa cena é devastadora justamente porque revela algo maior: a naturalização da crueldade.

Literatura como memória viva

A escrita da Cristiane de Souza tem algo muito íntimo. Em vários momentos, parece que Janaína está sentada na nossa frente tentando organizar tudo aquilo que viveu antes que as lembranças se percam. A linguagem é simples, mas carregada de imagens muito fortes.

Existe um cuidado grande em mostrar que, mesmo em meio à violência extrema, aquelas pessoas continuavam vivendo, sonhando, ouvindo música, cuidando dos animais, imaginando outros futuros possíveis.

As referências religiosas, musicais e afetivas tornam a narrativa ainda mais sensível. Janaína encontra pequenos respiros em livros, canções, histórias contadas pela mãe e até nas nuvens que observa enquanto escuta Scorpions no rádio.

Esses momentos não diminuem a dureza do livro, eles apenas lembram que pessoas pobres também têm subjetividade, imaginação e delicadeza. E isso parece óbvio, mas raramente é tratado assim.

Um livro necessário

Morro das Almas é, acima de tudo, uma obra realista. Cristiane de Souza escreve sobre uma infância marcada pela violência estrutural sem transformar essa experiência em espetáculo. O que ela faz é mais difícil: humaniza.

Ao final da leitura, fica a sensação de que Janaína escreveu esse livro porque precisava impedir que aquelas almas desaparecessem em silêncio.

Cada lembrança registrada funciona como uma tentativa de devolver existência a pessoas e dores que tantas vezes foram ignoradas.

E talvez seja justamente por isso que o livro toca tão fundo. Porque ele não fala apenas sobre sobreviver numa favela. Ele fala sobre continuar humano em um lugar onde tentam arrancar isso de você todos os dias.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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