Rafael Rocha: o autor paraense que atravessa poesia, memória e fantasia em busca de novas formas de narrar
Antes de Rafael Rocha pensar em publicar seus próprios livros, havia uma rotina que ajudou a definir seu caminho: frequentar a biblioteca municipal de Breves, no Pará, escolher novas leituras e levá-las semanalmente para casa. O contato com autores, épocas e culturas diferentes despertou uma pergunta aparentemente simples: seria possível escrever como aqueles escritores que tanto admirava?
A resposta não veio imediatamente, mas começou a ser construída em um diário e, depois, nos poemas, novelas e romances que transformaram o antigo leitor em autor.
Nascido em Altamira (PA) e atualmente residente em Belém, Rafael é escritor, poeta, editor e estudante de Direito. Sua formação literária começou ainda na infância, primeiro pelos quadrinhos e livros infantojuvenis e, gradualmente, por obras mais complexas da literatura universal, algumas lidas quando ainda não possuía maturidade suficiente para compreender tudo o que encontrava nas páginas. Com o tempo, porém, a curiosidade tornou-se repertório.
A poesia como primeiro território
Foi nos versos que Rafael consolidou inicialmente sua identidade autoral. Seu primeiro livro, Nereidas, nasceu de um desejo de investigar sentimentos e questões que permaneciam silenciados.
A obra levou mais de um ano para ser construída. Os poemas surgiam aos poucos, até formarem o conjunto que marcaria sua estreia.
Depois veio Cartas para/de Julieta, inspirado pela lembrança de uma antiga paixão. Dessa vez, Rafael apostou em uma estrutura completamente metrificada, próxima da tradição trovadoresca.
Seu trabalho mais recente nesse gênero, Delírios, percorre outro caminho. Composto por quarenta poemas em versos livres, o livro utiliza uma abordagem metafórica e filosófica para transformar experiências pessoais difíceis em matéria literária.
Assim, mesmo dentro da poesia, Rafael evita repetir uma única fórmula. Cada projeto determina uma nova maneira de escrever.
Da poesia para a história da própria família
A vontade de experimentar levou o escritor também à prosa. Inspirado pela leitura de autores como Graciliano Ramos e Jorge Amado, Rafael começou a desenvolver Tempo e Virtude, uma ficção biográfica baseada na história de seu avô.
A escolha aproximou sua escrita da tradição regionalista brasileira e mostrou que a literatura poderia funcionar também como espaço de preservação da memória familiar.
O autor passou, então, a circular entre gêneros distintos sem considerar essa diversidade uma contradição. Seu estilo muda conforme as necessidades de cada obra.

Se Nereidas combina elementos clássicos e contemporâneos, Cartas para/de Julieta aposta na métrica. Tempo e Virtude dialoga com o regionalismo, enquanto Delírios assume uma linguagem mais filosófica, metafórica e livre.
Uma aventura pelos quatro reinos
A fantasia acrescentaria outra dimensão à trajetória de Rafael. Depois de ler O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss, permaneceu com uma ideia insistente: queria escrever seu próprio romance fantástico.
O desejo deu origem a Os Segredos da Terra, primeiro volume da série O Conto de Ramak. A narrativa acompanha a viagem de um jovem através de quatro reinos. Há, nesse personagem, algo que se aproxima de uma inquietação presente também no próprio autor: a vontade de conhecer o mundo e descobrir o que existe além das fronteiras familiares.
Com a série, Rafael buscou uma linguagem mais universal, capaz de dialogar com leitores diferentes sem abandonar sua maneira particular de construir histórias.
Atualmente, o segundo volume de O Conto de Ramak ocupa o centro de seu trabalho criativo.
Escrever em círculos concêntricos
Rafael desenvolveu métodos diferentes para poesia e prosa. Quando escreve poemas, o processo pode acontecer de duas maneiras. Em alguns projetos, versos independentes surgem ao longo do tempo e posteriormente são selecionados para formar um livro. Em outros, a obra já nasce planejada como um conjunto, e os poemas são escritos seguindo determinada sequência.
Quando trabalha com métrica, a revisão costuma provocar transformações significativas. No verso livre, as alterações tendem a ser menores.
Na prosa, entretanto, seu método recebe uma definição bastante particular: “círculos concêntricos”. Primeiro, Rafael escreve toda a história de maneira resumida, como um conto. Depois, começa a expandi-la.
O conto pode se transformar em novela e, dependendo das possibilidades encontradas durante a reescrita, a novela pode crescer até assumir a dimensão de um romance.
A primeira versão funciona como núcleo. As seguintes acrescentam capítulos, cenas e detalhes, tornando progressivamente mais complexo aquilo que inicialmente cabia em poucas páginas.
Um escritor que não pretende permanecer no mesmo lugar
A quantidade de projetos em desenvolvimento demonstra como Rafael encara a experimentação como parte essencial de sua trajetória.
Além do segundo volume de O Conto de Ramak, o escritor já concluiu a primeira versão de uma novela ambientada em Belém, cidade onde vive atualmente.
Também finalizou um novo livro de poesia, de caráter mais reflexivo. A obra possui uma origem curiosa: foi escrita em um caderno azul que Rafael ganhou durante o sorteio de um clube de leitura.
Outro projeto poético permanece na gaveta aguardando o processo de metrificação. Há ainda outro livro de poemas sendo escrito ocasionalmente e um romance histórico iniciado recentemente. São projetos em diferentes estágios, alguns já estruturados e outros ainda encontrando sua forma.
Uma trajetória construída pela experimentação
Da biblioteca de Breves aos livros que hoje levam seu nome na capa, Rafael Rocha construiu sua relação com a literatura sem estabelecer fronteiras rígidas para aquilo que poderia escrever. A poesia abriu o primeiro caminho, mas logo vieram a memória familiar, a fantasia, o regionalismo e novos projetos em prosa.
Essa diversidade não representa apenas vontade de experimentar gêneros. Ela mostra um escritor interessado em encontrar a linguagem adequada para cada história, mesmo quando isso exige abandonar uma fórmula que já funcionou anteriormente.
Com novos poemas, uma novela ambientada em Belém, um romance histórico e a continuação de O Conto de Ramak em desenvolvimento, Rafael segue ampliando uma trajetória que começou com a curiosidade de um leitor diante dos livros que levava para casa. Agora, a pergunta já não é se ele poderia escrever como os autores que admirava, mas quantos caminhos diferentes sua própria escrita ainda poderá percorrer.
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