Carlos Fernando Collares: o autor que transformou a ciência da mente em literatura sobre memória, identidade e consciência

Durante grande parte da carreira, Carlos Fernando Collares dedicou-se a medir aquilo que parece invisível. Como médico, neurocientista e psicometrista, construiu uma trajetória internacional voltada ao estudo da memória, do raciocínio, da aprendizagem e da formação da identidade profissional. Seu trabalho sempre esteve apoiado em métodos rigorosos, estatísticas e evidências.

Mas existe um ponto em que a ciência inevitavelmente encontra seus limites. O momento em que números deixam de explicar o que significa perder alguém. Quando gráficos não conseguem traduzir a experiência da memória se desfazendo. Ou quando a consciência passa a fazer perguntas para as quais não existe instrumento de medição.

É exatamente nesse espaço que nasce a literatura de Carlos Fernando Collares. Sua ficção não abandona o olhar científico porque parte dele para investigar aquilo que nenhuma pesquisa consegue alcançar por completo: a experiência humana vista por dentro.

Uma trajetória construída entre ciência, educação e inovação

Brasileiro de nascimento e naturalizado holandês, Collares formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 2002. Posteriormente, aprofundou seus estudos com um mestrado em Psicologia, na área de Neurociências e Comportamento, pela Universidade de São Paulo, seguido pelo doutorado em Avaliação Psicológica, pela Universidade São Francisco.

A carreira acadêmica ganhou projeção internacional. Entre 2012 e 2022, atuou na Universidade de Maastricht, na Holanda, onde desenvolveu o primeiro teste adaptativo computadorizado de progresso para o European Board of Medical Assessors. A tecnologia foi posteriormente adotada por todas as faculdades de medicina holandesas, tornando-se referência na avaliação da formação médica.

Ao longo desse percurso, publicou mais de oitenta artigos científicos e acumulou centenas de citações acadêmicas, além de contribuir para debates sobre avaliação educacional e formação profissional.

Avaliar como forma de cuidar

Entre as contribuições mais conhecidas de Carlos Fernando Collares está uma mudança importante na maneira de compreender a avaliação.

Em vez de enxergá-la apenas como um mecanismo classificatório, propôs modelos diagnósticos capazes de identificar competências específicas e orientar o processo de aprendizagem.

Foi também nesse contexto que desenvolveu conceitos como o “currículo que respira”, metáfora utilizada para defender uma aprendizagem contínua e duradoura, e a distinção entre perfeccionismo e excelência na formação da identidade profissional.

Embora suas pesquisas envolvam tecnologia, psicometria e modelos estatísticos sofisticados, existe uma ideia que atravessa toda a sua produção científica: ensinar e avaliar são, antes de tudo, formas de cuidar de pessoas. Essa perspectiva humanista acabaria encontrando na literatura um novo espaço de expressão.

Quando a ciência encontrou a ficção

Durante muitos anos, Collares escreveu apenas artigos científicos. Era uma escrita precisa, controlada e submetida às exigências do método científico. A transição para os livros aconteceu gradualmente.

Primeiro vieram obras voltadas ao grande público. Em Hackeando o Estudo, transformou mais de quatrocentos artigos científicos em estratégias práticas de aprendizagem, sem abrir mão do rigor acadêmico. O projeto possui uma característica curiosa: a própria estrutura do livro aplica as técnicas cognitivas que ensina ao leitor.

Em seguida publicou Why Does Everything Exist?, uma obra destinada a crianças de todas as idades que apresenta, de maneira acessível, conceitos inspirados no idealismo analítico do filósofo Bernardo Kastrup. Mas era apenas o começo do seu salto para a ficção.

A ficção como investigação da consciência

A passagem para o romance representou uma mudança profunda. Collares levou consigo todo o método desenvolvido na ciência, mas passou a utilizá-lo para investigar perguntas que a pesquisa acadêmica dificilmente consegue responder.

Suas histórias são construídas como investigações. Hipóteses são formuladas e perspectivas são confrontadas.

As certezas permanecem constantemente sob suspeita, e em vez de explicar a mente, seus romances procuram habitá-la.

Narradores que obrigam o leitor a duvidar

Uma das características mais marcantes de sua literatura está na construção de narradores não confiáveis. No entanto, essa escolha nunca funciona apenas como recurso de suspense.

Para Collares, a não confiabilidade é uma consequência natural da própria consciência humana.

As personagens enxergam o mundo a partir de suas limitações cognitivas, emocionais e existenciais. O leitor é convidado a compartilhar dessa condição.

Não recebe respostas prontas e precisa conviver simultaneamente com dúvida e certeza. Essa tensão atravessa praticamente toda a sua obra.

Antes de Esquecer Quem Sou

Entre seus romances, Antes de Esquecer Quem Sou ocupa lugar central. A obra acompanha um cientista especializado em memória que presencia a deterioração cognitiva de um mentor querido diagnosticado com demência frontotemporal.

Existe uma ironia devastadora sustentando toda a narrativa. Quem dedicou a vida ao estudo da memória descobre que o conhecimento científico não é suficiente para impedir sua perda.

O romance nasceu inicialmente em inglês, com forte caráter autobiográfico. Posteriormente foi reescrito, ficcionalizado e submetido a um longo processo de revisão que resultou em vinte e seis versões diferentes.

Mais do que aperfeiçoar a linguagem, esse trabalho buscava encontrar o equilíbrio entre reflexão filosófica e experiência dramática.

Segundo o próprio autor, o maior desafio foi aprender a dramatizar sentimentos em vez de simplesmente explicá-los.

Outras histórias, as mesmas inquietações

Os romances O Limiar e A Moça Vem Domingo ampliam ainda mais o universo literário de Collares.

No primeiro, uma protagonista capaz de perceber aquilo que os demais ignoram conduz uma narrativa que questiona a própria natureza da consciência e da realidade.

A Moça Vem Domingo aproxima o realismo brasileiro da investigação psicológica.

Estruturado com documentos, laudos, boletins e registros burocráticos, o romance acompanha um protagonista cuja forma de compreender o mundo acaba tornando-se também o caminho de sua destruição.

Em ambos os casos, ciência e literatura permanecem inseparáveis. Não porque expliquem o mundo, mas porque ajudam a revelar sua complexidade.

Um autor que transforma perguntas em literatura

Ao observar a produção de Carlos Fernando Collares, percebe-se que existe um fio condutor atravessando tanto sua carreira científica quanto sua obra literária: o desejo de compreender o ser humano.

Na ciência, essa busca acontece por meio da pesquisa, da observação e da construção de conhecimento.

Na literatura, ganha outra dimensão. A memória deixa de ser apenas objeto de estudo para tornar-se experiência. A identidade deixa de ser conceito para transformar-se em conflito. A consciência abandona o laboratório e passa a habitar personagens que vivem entre certezas provisórias e dúvidas permanentes.

Depois de uma carreira dedicada a medir a mente humana, Carlos Fernando Collares encontrou na ficção um espaço onde aquilo que não pode ser quantificado também merece investigação. Seus romances demonstram que algumas das perguntas mais importantes da existência talvez nunca caibam em gráficos ou diagnósticos, mas podem encontrar, na literatura, uma forma de permanecer vivas.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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