O Vento, de Nivia Silva Oliveira, é uma poesia infantil que combina natureza e imaginação em movimento
O Vento, de Nivia Silva Oliveira, é um livro infantil construído a partir de algo que as crianças conhecem bem, embora não possam enxergar: o vento. Com versos breves, repetições, imagens delicadas e situações ligadas à natureza, a autora transforma esse elemento invisível em presença constante, capaz de movimentar folhas, anunciar a chuva, acompanhar brincadeiras e despertar a imaginação.
A própria apresentação da obra esclarece sua proposta: recuperar, em um cotidiano cada vez mais digital, a curiosidade pelas pequenas experiências da infância. Sentir o vento no rosto, perceber o cheiro da terra molhada, observar as gotas de chuva e escutar o sereno são apresentados como formas de descobrir o mundo. O livro se dirige às crianças, mas sua dedicatória também inclui os adultos que ainda guardam “a beleza por trás do mundo da imaginação”.
Um vento que pode ser sentido, mesmo sem ser visto
A escolha do vento como centro do livro funciona especialmente bem para o público infantil porque parte de uma experiência sensorial. Ele não aparece como uma explicação sobre fenômenos naturais. Em vez disso, é percebido pelos efeitos que provoca.
“Zum, zum, zum”, “passa o vento a dançar”, “venta pra lá”, “venta pra cá” e “as folhas a rodopiar” são versos que transformam movimento em ritmo. A repetição e a sonoridade dão ao texto uma qualidade próxima da brincadeira oral, permitindo que a leitura seja acompanhada pela voz, pelo gesto e até pela imitação do próprio vento.
As ilustrações ampliam essa proposta. Linhas brancas atravessam as paisagens para tornar visível aquilo que, na realidade, só conseguimos sentir. Folhas voam, árvores se inclinam e crianças aparecem interagindo com o ambiente. Em vez de ocupar um papel meramente decorativo, as imagens ajudam a criança a compreender o que os poucos versos sugerem.
Essa relação entre palavra e ilustração é importante porque O Vento trabalha com economia verbal. Há pouco texto em cada página, deixando espaço para observar a cena e perceber seus detalhes.
Da brisa agradável à força da natureza
A obra também apresenta diferentes manifestações do vento. Há o “ventinho de chuva”, acompanhado pela mudança do tempo, pelas roupas adequadas e pelo contato divertido das crianças com a água. Depois surge o “ventinho de verão”, associado à pipa, ao espaço aberto e às brincadeiras ao ar livre.
Essa alternância impede que o vento seja apresentado de uma única maneira. Ele pode trazer frescor, movimentar uma brincadeira ou mudar completamente de intensidade.
Em determinado momento, o tom se transforma: “E o vento ficou zangado…”, seguido por “Agora tá danado!” e, depois, “Lá vem o furacão!”. A paisagem acompanha essa mudança. As cores ficam mais escuras, as árvores se curvam e as linhas que representam o vento se tornam mais intensas.
É uma passagem simples, mas interessante para a leitura com crianças porque permite observar contrastes. O mesmo elemento que antes fazia folhas rodopiarem e uma pipa subir também pode ganhar força. O livro não precisa recorrer a explicações longas para comunicar essa mudança; texto, cor e movimento trabalham juntos.
A natureza como espaço de descoberta
Um dos aspectos mais agradáveis de O Vento está justamente na atenção dedicada ao mundo natural. Crianças, árvores, flores, folhas, vacas, cachorro, gato, insetos, chuva e paisagens abertas aparecem ao longo das páginas, criando um cenário em que observar também faz parte da brincadeira.
Essa escolha dialoga diretamente com a intenção apresentada no início do livro: estimular uma infância que ainda tenha espaço para contemplar a natureza e perceber acontecimentos simples.
O resultado é uma leitura que pode favorecer a participação da criança. Os versos curtos abrem espaço para perguntas durante a leitura: para onde o vento está levando as folhas? O que acontece com as árvores? Como sabemos que está ventando se não conseguimos enxergá-lo? A obra oferece elementos visuais suficientes para que a criança observe antes mesmo de formular uma resposta.
Há, portanto, uma curiosidade presente na experiência do livro. O vento é familiar, mas permanece misterioso. Ele passa, muda, volta, aumenta de intensidade e desaparece sem que possa ser segurado.
Quando o vento passa, ficam as memórias
As páginas finais recuperam a delicadeza visual depois da intensidade do furacão. O vento segue adiante e deixa para trás “um rastro de folhas, flores e memórias”. A imagem noturna, com lua, estrelas e os caminhos brancos desenhados no céu, encerra a experiência com uma atmosfera mais tranquila.
Esse final conversa bem com a proposta anunciada no começo. O livro deseja aproximar infância, imaginação e natureza, e termina justamente sugerindo aquilo que permanece depois de uma experiência: a memória.
Também chama atenção a coerência estética da obra. As ilustrações em aparência de aquarela, os tons suaves e as paisagens campestres sustentam a leveza dos versos. Mesmo quando o tempo escurece, o livro preserva uma linguagem visual adequada ao universo infantil. A presença recorrente de crianças e animais cria ainda pequenos pontos de observação que podem render novas descobertas em releituras.
O Vento funciona especialmente bem como leitura compartilhada entre crianças e adultos. Seu texto curto favorece leitores em fase inicial, enquanto a repetição e as onomatopeias tornam a leitura em voz alta mais participativa.
Nivia Silva Oliveira encontra no vento um caminho simples para falar sobre imaginação sem afastá-la do mundo concreto. A magia está justamente em perceber o que acontece ao redor: uma folha que gira, uma árvore que se curva, a chuva que chega, uma pipa sustentada no céu. Para crianças que estão descobrindo a leitura e o ambiente à sua volta, essa combinação entre poesia, imagem e observação oferece uma experiência leve, visual e cheia de movimento.
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