Lana e o Poder do Coração, de Janaina Leal, é uma obra infantil que apresenta uma super-heroína que descobre a força da bondade

Lana e o Poder do Coração, de Janaina Leal, é uma obra de literatura infantil que combina super-heróis, aventura fantástica e uma mensagem direta sobre amor, bondade e cuidado com o outro. A história acompanha Lana, uma menina alegre que gosta de ler, desenhar mundos mágicos e pintar. Entre suas maiores paixões estão justamente as histórias de super-heróis, que alimentam o desejo de um dia usar seus próprios poderes para proteger as pessoas.

Esse desejo não demora a ganhar forma. Certo dia, Lana sente um calor brilhante no peito e é envolvida por uma nuvem de glitter rosa. Quando a transformação termina, ela está vestida com armadura, tutu, botas, tiara e um cinto de coração. Nasce, assim, a Super-heroína do Coração.

Uma heroína que aprende seus poderes ajudando

A descoberta dos poderes acontece aos poucos e sempre ligada a situações concretas. Primeiro, Lana percebe que consegue voar. Depois, ao encontrar no parque um menino que havia ralado o joelho, coloca a mão sobre o machucado e descobre seu poder de cura.

A sequência continua quando ela encontra um gatinho preso no alto de uma árvore e usa seu supersalto para resgatá-lo. No parquinho, conserta com sua magia uma ponte quebrada. Mais tarde, impede que um carrinho de sorvetes desça descontrolado por uma ladeira e atinja alguém.

Essas pequenas intervenções têm uma função importante na narrativa. Janaina Leal apresenta as habilidades da personagem enquanto mostra para que Lana deseja utilizá-las. A menina não está interessada apenas na experiência de voar, saltar ou demonstrar força. Ela encontra satisfação principalmente no efeito de suas ações sobre outras pessoas.

Depois de salvar o carrinho de sorvetes, por exemplo, Lana recebe como agradecimento um enorme sorvete de morango. Enquanto aproveita o presente, pensa em como ajudar os outros é uma sensação especialmente boa. A aventura começa, portanto, a construir sua mensagem antes mesmo do aparecimento do grande conflito.

Quando a alegria da cidade desaparece

O tom da história muda com a chegada do Doutor Sem-Coração. Uma fumaça cinzenta cobre a cidade, as flores murcham e as pessoas deixam de sorrir. O responsável está escondido em um castelo no alto de uma montanha e possui um objetivo bastante claro: roubar o amor do coração de todos.

Visualmente, essa mudança também é evidente. As páginas inicialmente dominadas por rosa, azul, verde e cenários ensolarados dão lugar aos tons escuros do castelo e à fumaça que acompanha o vilão. O contraste facilita para o público infantil a compreensão da oposição central entre a alegria associada a Lana e a tristeza provocada pelo Doutor Sem-Coração.

Lana, então, precisa deixar as pequenas ações de ajuda para enfrentar uma ameaça que envolve toda a cidade. É nesse momento que os poderes apresentados anteriormente passam a ser reunidos: ela voa para escapar dos ataques, utiliza o supersalto, recorre à telecinese para se proteger e usa sua força contra a máquina responsável por drenar o amor das pessoas.

A progressão é simples e adequada à proposta infantil. Cada habilidade descoberta no início encontra espaço na aventura posterior, permitindo que a criança reconheça aquilo que Lana já aprendeu e acompanhe como ela utiliza esses recursos diante de um perigo maior.

O verdadeiro poder de Lana

Apesar da presença de superforça, voo, cura, telecinese e supersalto, o centro da história está em outro tipo de poder. Depois de destruir a máquina do Doutor Sem-Coração, Lana não encerra o confronto apenas derrotando o adversário. Ela percebe que o próprio vilão possui um coração quebrado e utiliza sua capacidade de cura sobre ele.

Essa resolução explicita a mensagem que Janaina Leal constrói desde as primeiras páginas. O poder mais importante de Lana não está em ser fisicamente mais forte que seu adversário, mas em responder ao conflito com bondade. O Doutor Sem-Coração se transforma no Doutor Amigo e passa a espalhar alegria pela cidade.

Para leitores adultos, essa solução pode parecer bastante direta, mas ela é coerente com a faixa e com o universo proposto. O livro trabalha com oposições facilmente identificáveis — amor e amargura, alegria e tristeza, cuidado e maldade — para apresentar valores de maneira acessível.

Também há um detalhe interessante na construção da protagonista: Lana desejava ser uma super-heroína antes de descobrir qualquer habilidade extraordinária. Quando os poderes aparecem, eles ampliam uma disposição que já existia nela. Seu impulso inicial era proteger pessoas. Assim, a fantasia não cria sua bondade; oferece meios mágicos para que ela a coloque em ação.

Uma leitura que também se transforma em brincadeira

A dimensão visual ocupa grande espaço em Lana e o Poder do Coração. As ilustrações coloridas acompanham praticamente toda a narrativa e reforçam a identidade da protagonista, especialmente pelo rosa, pelos corações e pelo brilho que caracterizam seus poderes. O livro aposta em uma estética intensa e facilmente reconhecível, próxima do imaginário infantil de super-heróis.

Depois do encerramento da história, a obra ainda propõe interação. Há uma página em que Lana chama a criança para brincar e atividades como “Ligue os Abraços”, que pede a associação entre corações iguais, e “Vamos Somar?”, com exercícios de contagem e adição utilizando personagens e elementos visuais da própria aventura. Dessa forma, a experiência se prolonga para além da leitura da narrativa.

Lana e o Poder do Coração funciona especialmente para crianças que gostam de aventuras com super-heróis, magia e personagens visualmente marcantes. Janaina Leal utiliza elementos conhecidos desse universo como transformação, traje especial, poderes, vilão e confrontos para contar uma história em que ajudar, cuidar e demonstrar bondade ocupam o lugar central.

No fim, Lana descobre que pode fazer muitas coisas extraordinárias. Mas a escolha mais importante da personagem não depende de voar nem de sua superforça: diante de alguém que espalha tristeza, ela decide usar justamente o poder de curar.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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