O Indito, do autor Leonir, é uma obra de poesia sobre amor, desejo, culpa e tudo aquilo que permanece sem nome depois do fim
O Indito, de Leonir, nasce de uma contradição que atravessa todo o livro: a necessidade de colocar em palavras justamente aquilo que parece escapar da linguagem. Em sua estreia literária, o autor constrói uma coletânea poética em torno das transformações provocadas pelo amor; do encantamento à entrega, da culpa à ruptura, até chegar ao esforço de reconstrução. O próprio título é uma palavra criada para tentar nomear o que não consegue ser completamente dito.
A dedicatória, curta e reveladora “Ao amor. Apesar de tudo.” antecipa a tensão que sustentará o livro. Leonir não escreve sobre o amor somente a partir de sua beleza. Ele o observa também pelo constrangimento, rejeição, desejo, sexo, abandono e pelas marcas que permanecem quando uma relação termina.
Do primeiro gole à ressaca
Uma das escolhas mais interessantes de O Indito está em sua estrutura. Os poemas são organizados em cinco partes que reproduzem simbolicamente uma experiência de embriaguez: “O primeiro gole”, “O segundo gole é heresia”, “O terceiro gole tem teu nome”, “Quando o álcool entra e a verdade sai” e, finalmente, “A ressaca”.
Essa divisão dá unidade a uma obra formada por textos bastante diferentes. O álcool deixa de ser apenas uma imagem recorrente e funciona como arquitetura emocional. Conforme os “goles” avançam, diminuem as defesas do eu lírico. O encantamento inicial abre espaço para desejo, exposição, vínculos, desilusões e dores que parecem existir muito antes do relacionamento amoroso.
Nos primeiros poemas, Leonir já estabelece uma característica que será constante: a oscilação entre intensidade e autoironia. “Manual de como não ser amado” transforma insegurança afetiva em uma espécie de receita às avessas; “Retrato do amor quando jovem” olha para os excessos românticos com humor, contrapondo idealizações às exigências menos glamourosas da convivência. O eu lírico sofre, mas também sabe rir da própria maneira de sofrer. É justamente esse humor que impede que a melancolia domine completamente a leitura.
Entre o sagrado, o desejo e a culpa
Na segunda parte, a linguagem religiosa ganha enorme importância. Poemas como “O Evangelho segundo os pecadores”, “Soneto do amor proibido”, “A liturgia do toque”, “Primeira comunhão” e “A missa profana” apropriam-se de imagens cristãs para falar de desejo, corpo e sexualidade. Altar, oração, pecado, comunhão, céu e inferno são deslocados de seus sentidos tradicionais.
Não se trata apenas de provocação estética. Ao aproximar erotismo e vocabulário religioso, Leonir coloca em confronto duas forças: a experiência íntima do desejo e os discursos que historicamente tentam determinar quais formas de amor podem ser consideradas legítimas.
Essa dimensão torna-se explicitamente coletiva em “Obrigado”, no qual aparecem referências a Marsha, James Baldwin, Oscar Wilde, Cazuza e Ney Matogrosso, além daqueles que morreram sem direito ao luto e à despedida. O poema amplia a voz do livro: aquilo que poderia permanecer restrito à experiência amorosa individual passa a dialogar com memória, resistência e existência LGBTQIA+.
Um eu lírico que não tenta parecer invulnerável
Talvez a qualidade mais marcante da escrita de Leonir seja a disposição de assumir o exagero emocional em vez de escondê-lo atrás de uma postura distante. Seu eu lírico deseja demais, espera demais, teme não ser amado, sente ciúme, idealiza, sofre com o próprio corpo e reconhece suas contradições.
Em “O que arde e o que ri”, por exemplo, duas vozes confrontam formas diferentes de lidar com a vulnerabilidade: uma dramatiza, outra se fecha; uma procura colo, outra constrói muros. A conclusão associa escrita e necessidade emocional, ajudando a compreender algo fundamental em O Indito: escrever não aparece como ornamentação da dor, mas como uma tentativa de suportá-la.
A mesma exposição surge quando o livro trata da relação com o corpo. “Espelho, espelho meu” aborda insegurança, envelhecimento, desejo e padrões de beleza, enquanto “Quando me deixo ser belo” desloca o olhar para momentos em que a autopercepção pode ser menos punitiva. A proximidade entre esses poemas é significativa porque Leonir raramente apresenta uma emoção como estado definitivo.
Quando o amor deixa de ser o único assunto
A parte intitulada “Quando o álcool entra e a verdade sai” aprofunda esse movimento. A partir dela, o livro expande as dores que vinham aparecendo nas relações afetivas e toca em questões mais profundas da formação desse eu lírico.
É nesse trecho que a poesia alcança alguns de seus momentos mais difíceis. “Inocência perdida”, por exemplo, aborda uma violência sofrida na infância e o modo como a experiência permanece silenciosamente inscrita na vida posterior. O poema altera a perspectiva sobre vulnerabilidades que apareceram antes: determinadas dores deixam de poder ser compreendidas somente como consequências de relacionamentos malsucedidos.
Isso dá outra espessura à obra. Aos poucos, a pergunta deixa de ser apenas “por que o amor doeu?” e passa a envolver aquilo que cada pessoa leva consigo quando tenta amar.
Aquilo que continua indito
O percurso até “A ressaca” é coerente com a metáfora que organiza o livro. Depois da euforia, da desinibição e da queda das defesas, chega o momento de encarar o que restou. Os últimos poemas incluem títulos como “Não sou só melancolia”, “A confusão ainda me acompanha”, “O dia depois de amanhã”, “O que escolho levar comigo” e, finalmente, “O Indito”.
Essa sequência é importante porque a reconstrução não é apresentada como apagamento. O que aconteceu continua fazendo parte daquele que sobreviveu à experiência. A própria apresentação da obra reconhece que algumas experiências “não terminam quando acabam”: permanecem na tentativa de compreendê-las e dizê-las.
Leonir escreve transitando entre o lírico, o confessional e o irônico, alternando poemas breves com textos mais extensos e recorrendo a referências religiosas, astrológicas, mitológicas e culturais. As imagens presentes ao longo da edição também reforçam o caráter visual do projeto, estabelecendo uma relação entre corpo, performance e palavra.
O Indito funciona especialmente bem quando permite que suas contradições permaneçam abertas. Amor pode ser abrigo e ferida; desejo pode significar liberdade e carregar culpa; humor pode conviver com sofrimento; superar não significa esquecer.
Ao chegar ao fim, entende-se melhor o neologismo do título. Leonir escreve muito, confessa muito, expõe muito; e ainda assim reconhece o limite da própria poesia. Existe sempre alguma coisa que sobrevive à palavra. É justamente nesse espaço, entre aquilo que finalmente conseguimos dizer e aquilo que continua sem linguagem, que habita o indito.
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