Kássio A. Mendes: conheça o autor que usa humor e filosofia para desorganizar certezas
A formação musical acompanhou Kássio A. Mendes desde a infância, mas foi na literatura que ele encontrou outro território para trabalhar ritmo, contraste e ruptura. Natural de Belo Horizonte e morador de Santa Luzia, em Minas Gerais, desde os cinco anos, o autor constrói uma prosa em que situações reconhecíveis são retiradas de sua aparente normalidade. O cotidiano permanece ali, mas basta um pequeno deslocamento para que suas convenções revelem contradições, absurdos e novas possibilidades de interpretação.
Membro honorário da Academia Luziense de Letras e Artes de Santa Luzia (ALUZ), Kássio é autor do e-book Casamento: Uma Divina Comédia, disponível também no Kindle Unlimited, e de A Potência do Desvio: Ensaios Para O Grande Meio Dia. Em sua produção, sátira e filosofia não aparecem como caminhos separados. O humor serve ao questionamento, enquanto o pensamento filosófico ganha forma por meio de diálogos, situações insólitas e conflitos entre diferentes perspectivas.
Da música à construção literária
A trajetória artística de Kássio começou cedo. Aos dez anos, iniciou os estudos de Música em um coral de Santa Luzia. Aos 23, concluiu sua primeira graduação na área e, posteriormente, ampliou a formação com uma licenciatura e uma especialização.
Embora música e literatura utilizem linguagens distintas, a experiência artística ajuda a compor a trajetória de um autor interessado em estruturas e em maneiras pouco convencionais de organizar ideias. Na escrita, entretanto, Kássio não segue um método rígido.
Seu processo criativo acontece de maneira espontânea. Uma ideia surge, ele se senta para desenvolvê-la e permite que as palavras conduzam a construção do texto. Não há, segundo o próprio escritor, uma sistematização anterior que determine todas as etapas da criação.
O contraste é interessante: por trás de obras que podem ser examinadas a partir de diferentes referências filosóficas e procedimentos literários, existe um processo de criação bastante intuitivo.
O cotidiano como ponto de partida para o absurdo
Um dos aspectos mais característicos da escrita de Kássio está no que pode ser entendido como uma “lógica do deslocamento”. Em vez de construir o absurdo a partir de uma realidade completamente distante do leitor, ele começa pelo familiar.
Uma situação comum, uma convenção linguística ou um comportamento socialmente aceito oferece o ponto de partida. Aos poucos, uma ruptura é introduzida. O que parecia perfeitamente normal passa a obedecer a uma lógica inesperada e, nesse movimento, aquilo que normalmente não seria questionado começa a parecer estranho.
É justamente nesse estranhamento que a sátira encontra sua dimensão filosófica.
Sua prosa combina humor de incongruência, ironia, diálogos e elementos do grotesco cotidiano. Há ainda uma forte aproximação com procedimentos da sátira menipeia, tradição caracterizada, entre outros aspectos, pela combinação entre questionamento filosófico, comicidade, contraste de perspectivas e liberdade na construção narrativa.
O riso, portanto, não funciona apenas como conclusão de uma situação engraçada. Pode ser também o início de uma dúvida.
Quando diferentes vozes entram em confronto
Outra característica importante de sua produção é o caráter dialógico. Em vez de apresentar necessariamente uma visão única e estável, Kássio coloca diferentes vozes, ideias e certezas em confronto.
Esse procedimento permite que determinadas convenções sejam examinadas pelo próprio choque entre perspectivas. O leitor reconhece uma situação, acompanha seu desenvolvimento e, gradualmente, percebe que as regras daquele universo começam a se voltar contra a aparente normalidade que as sustentava.
A carnavalização e o grotesco cotidiano contribuem para esse movimento de inversão. Hierarquias podem ser deslocadas, discursos perdem a segurança inicial e aquilo que parecia evidente deixa de oferecer respostas tão confortáveis.
É uma literatura interessada menos em entregar certezas do que em testar a resistência delas.
Filosofia dentro da própria estrutura narrativa
Em A Potência do Desvio: Ensaios Para O Grande Meio Dia, essa proposta ganha uma camada especialmente filosófica. Nietzsche, Foucault e Brecht ajudam a compor não somente as referências intelectuais da obra, mas também sua organização interna.
A influência de Nietzsche aparece na crítica aos valores estabelecidos, no deslocamento de perspectivas e no questionamento da moral convencional. Em diálogo com Foucault, a narrativa desenvolve uma postura de suspeita diante de categorias, diagnósticos, instituições, discursos e mecanismos utilizados para estabelecer aquilo que deve ser considerado normal.
Já a aproximação com Brecht se manifesta principalmente na ruptura da ilusão ficcional. Ao recorrer à metaficção e à quebra da quarta parede, o texto chama atenção para sua própria condição de construção. Em determinados momentos, a narrativa deixa de permitir que o leitor simplesmente esqueça que está diante de uma obra criada e passa a utilizar essa consciência como parte da experiência.
As referências, assim, não permanecem apenas no campo das citações. Elas participam da maneira como o livro pensa e se estrutura.
Escrever para provocar deslocamentos
Ao reunir filosofia, sátira e situações cotidianas, Kássio desenvolve uma literatura que encontra força na alteração de perspectiva. O comum não precisa desaparecer para que o estranho surja; muitas vezes, basta observá-lo por outro ângulo.
Essa característica aproxima suas obras de um leitor disposto a participar do jogo proposto pela narrativa. O humor pode provocar diversão, mas também desconforto. A ironia pode revelar uma contradição. Uma conversa aparentemente banal pode expor mecanismos sociais que costumam passar despercebidos.
Por enquanto, Kássio não estabelece uma previsão para novos lançamentos. Existem ideias aguardando o momento de serem escritas, mas nenhuma delas possui, neste momento, um cronograma definido.
A ausência de planejamento para as próximas publicações combina, de certo modo, com a espontaneidade de seu processo criativo. Kássio A. Mendes escreve a partir da ideia que pede espaço e encontra na literatura uma forma de submetê-la ao desvio. Entre o humor, a filosofia e a quebra de expectativas, sua produção se consolida justamente nesse movimento: observar aquilo que parece perfeitamente organizado e descobrir o que acontece quando uma pequena ruptura modifica toda a lógica ao redor.
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