Nívia Silva Oliveira: conheça a autora que transforma memórias da roça em histórias sobre infância e natureza

Antes de estudar fórmulas, reações e métodos de análise, Nívia Silva Oliveira aprendeu a observar o mundo pelo que acontecia ao seu redor. Cresceu na roça, onde passou grande parte da vida, e encontrou na natureza uma fonte constante de curiosidade. Os caminhos de terra eram percorridos muitas vezes com os pés descalços; árvores, animais, nuvens, chuva e estrelas faziam parte de uma infância em que brincar dependia menos de objetos prontos e mais da capacidade de imaginar.

A mais velha de cinco irmãos, Nívia levou essas experiências consigo quando seguiu por um caminho aparentemente distante da literatura. Estudou Química, tornou-se professora e concluiu o mestrado em Química Analítica pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). A formação científica, entretanto, não apagou o interesse pelas palavras. A menina que procurava histórias no movimento das folhas continuou presente na adulta que aprendeu a trabalhar com precisão e ciência.

Hoje, casada e mãe de duas meninas, ela reúne essas diferentes dimensões na escrita. É das lembranças da própria infância e da maneira como deseja apresentar o mundo às filhas que surge parte importante de sua inspiração literária.

Uma infância vivida do lado de fora

A natureza não aparece na trajetória de Nívia apenas como cenário. Durante a infância, era também espaço de brincadeira, observação e descoberta.

Ela gostava dos animais e das árvores, acompanhava as nuvens, esperava a chuva, observava as estrelas e prestava atenção em acontecimentos que poderiam parecer pequenos demais para quem passasse depressa por eles. O vento movimentando as folhas, por exemplo, não era somente um fenômeno da natureza: poderia abrir caminho para uma história. Foi dessa observação que nasceu O Vento.

A origem da obra ajuda a entender a relação de Nívia com a literatura. Sua imaginação se alimenta daquilo que conhece desde cedo, especialmente dos detalhes encontrados no ambiente natural. Em vez de separar completamente memória e fantasia, ela encontra nas experiências vividas matéria para criar outros mundos.

A poesia também esteve presente nesse percurso. Nívia sempre gostou de escrever poemas e transformar lembranças, sonhos e imagens em palavras, preservando uma relação com a criação mesmo enquanto construía sua formação acadêmica.

Entre a precisão da Química e a liberdade da imaginação

A escolha profissional conduziu Nívia para a ciência. Como professora e mestre em Química Analítica pela UFV, ela passou a conviver com fórmulas, medidas, reações e procedimentos que exigem rigor. A literatura ocupa outro espaço, mas não precisa representar uma oposição à sua formação.

Se a ciência procura observar fenômenos, formular perguntas e compreender aquilo que acontece, a escrita permite que essa curiosidade avance por caminhos nos quais a imaginação não precisa obedecer aos mesmos limites. Em sua trajetória, os dois campos coexistem.

Essa conciliação se torna especialmente significativa porque Nívia não abandonou as referências de sua origem ao avançar academicamente. As experiências da menina criada na roça permanecem como repertório afetivo e criativo. São lembranças que retornam na maneira como observa a natureza e, principalmente, na infância que procura proporcionar às próprias filhas.

A maternidade e a defesa de uma infância com mais descobertas

Ao se tornar mãe de duas meninas, Nívia passou a revisitar de outra maneira aquilo que havia experimentado quando criança.

Ela deseja que as filhas tenham contato com uma infância menos dependente das telas e mais aberta à exploração do mundo concreto. É o que define, com bom humor, como criar “crianças raiz, e não crianças Nutella”.

Na prática, isso significa incentivar experiências simples: colocar os pés na terra, correr na chuva, observar uma formiga trabalhando, olhar para as estrelas, subir em árvores, brincar com animais e perceber que uma folha, uma pedra ou um graveto podem assumir inúmeras funções quando passam pelas mãos de uma criança. Por trás dessas brincadeiras existe uma concepção de infância baseada em autonomia e curiosidade.

Nívia acredita que o contato com a natureza pode ensinar sem transformar cada experiência em uma lição formal. Inventar um brinquedo quando não existe algo pronto estimula a criatividade. Explorar ambientes ajuda a desenvolver autonomia. Conviver com animais pode ampliar o respeito por outras formas de vida. Cair e levantar faz parte da descoberta dos próprios limites. Sua literatura encontra espaço justamente nesse olhar.

Quando observar também é aprender

A experiência de Nívia como professora acrescenta outra camada à maneira como ela compreende a infância. Embora sua formação esteja ligada à Química, sua visão sobre aprendizagem não se restringe ao conhecimento adquirido em ambientes formais. Há muito a descobrir quando uma criança tem tempo para observar.

Essa defesa de uma infância mais próxima da natureza não significa apenas recuperar nostalgicamente o passado. Para Nívia, trata-se de preservar possibilidades que continuam importantes no presente: imaginar sem receber tudo pronto, perceber pequenos acontecimentos, experimentar, fazer perguntas e construir lembranças a partir do contato direto com o mundo.

É nesse ponto que ciência, maternidade e literatura começam a se aproximar. A curiosidade necessária para investigar um fenômeno também está na criança que acompanha uma formiga ou tenta entender o movimento das folhas. A imaginação que transforma um graveto em brinquedo pode ser a mesma que, anos depois, permite criar histórias.

Histórias com os pés na terra

Ao escrever, Nívia recupera parte de uma herança que agora busca transmitir às filhas. Não se trata apenas de reproduzir a infância que você viveu, mas de conservar o que você considera essencial nela: liberdade para explorar, atenção à natureza e espaço para imaginar.

O Vento nasce de maneira representativa desse encontro. Um elemento cotidiano observado desde cedo se transforma em matéria literária, aproximando a autora adulta da criança que encontrava mistérios nos movimentos do mundo natural.

Nívia Silva Oliveira não precisou abandonar a ciência para encontrar lugar na literatura, assim como não precisou deixar suas origens para avançar pela vida acadêmica. Professora, química, escritora e mãe, ela reúne experiências que continuam dialogando entre si. Sua escrita retorna à terra, às árvores, aos animais e ao céu não apenas como recordação, mas como possibilidade de apresentar às novas gerações outra maneira de olhar ao redor.

No caminho que percorre agora como autora, a infância permanece como ponto de partida: aquela vivida com os pés no chão e aquela que deseja ajudar suas filhas (e seus leitores) a descobrir por conta própria.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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