Leonir: conheça o autor que transforma amores, ausências e o que não foi dito em poesia

O fim de um relacionamento levou Leonir a escrever sobre aquilo que sentia, mas a experiência logo deixou de caber em uma única história de amor. Outros vínculos, lembranças e poemas escritos em diferentes períodos começaram a se aproximar, revelando uma questão mais ampla: o que permanece em uma pessoa depois que alguém deixa sua vida? Dessa investigação nasceu O Indito, primeiro livro do advogado e escritor cuiabano, publicado pela Editora Labrador.

Com 184 páginas, a obra reúne poemas sobre desejo, abandono, culpa, paixão e memória, organizados de maneira a estabelecer uma trajetória entre eles. Embora cada texto possa ser lido individualmente, existe um enredo que atravessa o conjunto e acompanha um eu-lírico transformado pelas relações que vive.

O livro teve seu primeiro encontro com os leitores em 6 de setembro, durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no estande da Editora Labrador. Quatro dias depois, em 10 de setembro, ganhou lançamento oficial na galeria de arte Casavela, também em São Paulo, com uma experiência imersiva construída a partir do universo visual da obra.

Um livro de poemas com um enredo subterrâneo

Leonir percebeu durante a organização de O Indito que não estava apenas reunindo poemas. Os textos começavam a estabelecer relações entre si, formando algo próximo da progressão narrativa de um romance. Essa característica determinou a própria estrutura do livro.

A obra é dividida em quatro partes chamadas de “goles”, que conduzem a uma “ressaca”. Ao longo desse percurso, o leitor acompanha um homem atravessado por diferentes experiências afetivas. Aos poucos, a atenção deixa de estar exclusivamente nas pessoas que passaram por sua vida e se desloca para as marcas produzidas por esses encontros e despedidas.

A pergunta passa a ser menos sobre quem foi embora e mais sobre quem permaneceu depois da partida. A construção permite que Leonir trate o amor não apenas pelo instante da paixão ou pelo rompimento, mas pelas consequências que uma relação pode deixar. Memórias, culpas e desejos continuam circulando quando o vínculo já terminou, modificando a maneira como o eu-lírico interpreta a si mesmo e aquilo que viveu.

Aquilo que permanece sem ser dito

O próprio título concentra parte das inquietações do livro. “Indito” é um neologismo criado pela aproximação entre aquilo que não foi dito e “inditoso”, palavra relacionada ao infortúnio. Leonir reúne, assim, duas ideias em um único termo: a dificuldade de expressar determinadas experiências e a desventura associada a elas.

Existe também uma contradição deliberada nessa escolha. O Indito é um livro escrito justamente para tentar dizer aquilo que seu título apresenta como não dito.

A busca por palavras faz com que o eu-lírico recorra a diferentes repertórios na tentativa de compreender o que sente. Literatura, religião, astrologia, cinema, música e mitologia aparecem entre os referenciais mobilizados ao longo dos poemas. Até o Direito, área de formação e atuação profissional de Leonir, fornece vocabulário para essa investigação.

Nenhuma dessas linguagens surge necessariamente como resposta definitiva. Elas funcionam como possibilidades de interpretação diante de experiências que nem sempre podem ser organizadas com facilidade.

Da experiência pessoal à construção do eu-lírico

Embora um relacionamento próximo do fim tenha sido um dos impulsos para o projeto, O Indito não se restringiu a esse acontecimento.

Durante a construção da obra, Leonir recuperou poemas produzidos em outros momentos e percebeu que eles poderiam integrar uma narrativa maior. Relações distintas passaram a compartilhar o mesmo espaço literário, compondo uma trajetória afetiva que ultrapassa a história de uma única pessoa. O interesse estava justamente nas consequências dessa sucessão de encontros e desencontros.

Nesse processo, a experiência pessoal passa pela transformação da literatura. Leonir está presente no livro, mas não deve ser confundido integralmente com a voz que conduz os poemas. O eu-lírico carrega elementos do autor ao mesmo tempo que assume existência própria dentro da obra.

Essa distinção permite que acontecimentos reais sejam reorganizados, ampliados ou atravessados pela ficção. Em vez de funcionar como registro direto de uma biografia amorosa, o livro constrói uma voz capaz de reunir diferentes experiências em torno das perguntas que interessam ao autor.

Entre o Direito, a ironia e a poesia

Natural de Cuiabá e atualmente vivendo em São Paulo, Leonir concilia a atuação como advogado com a escrita. A convivência entre esses dois campos também aparece em sua linguagem literária.

Se o Direito trabalha frequentemente com definições, argumentos e a necessidade de nomear situações com precisão, O Indito se aproxima justamente de sentimentos que resistem a classificações simples. A tensão entre esses universos ajuda a formar uma escrita que transita pelo lírico, pelo confessional e pela ironia.

Essa combinação também impede que a abordagem das relações permaneça apenas em um registro sentimental. Ao buscar diferentes maneiras de compreender amor, perda e culpa, Leonir permite que o próprio eu-lírico questione as explicações às quais recorre.

No lançamento oficial, essa separação entre escritor e construção literária ganhou uma dimensão performática: quem se apresentou ao público foi o eu-lírico de O Indito. A proposta aproximou a experiência do evento da estrutura do livro, expandindo para fora das páginas a voz responsável por conduzir sua narrativa poética.

Perguntas que permanecem depois do livro

A escrita começou para Leonir como uma tentativa de compreender sentimentos, mas o processo não terminou com todas as questões solucionadas. Ao contrário, levou o autor a formular novas perguntas sobre aquilo que viveu e transformou em literatura. Essa ausência de uma resposta única também orienta a relação que O Indito procura estabelecer com seus leitores.

Leonir não pretende determinar o significado que cada poema deve assumir. Ao deixar espaços para diferentes interpretações, permite que experiências particulares encontrem correspondências na obra. Uma passagem pode recuperar uma lembrança, outra pode adquirir sentido a partir de uma perda ou de uma relação que o próprio leitor viveu.

Com O Indito, Leonir inicia sua trajetória editorial investigando justamente o terreno em que memória e linguagem nem sempre conseguem chegar a uma conclusão. Seus poemas percorrem o que foi vivido, aquilo que terminou e as marcas que continuaram presentes. No centro do livro, permanece menos a necessidade de explicar definitivamente o amor do que a tentativa de compreender o que ele modifica, inclusive quando já não está mais ali.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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