Isaías Ehrich: o autor que permite-se ser poema como gesto de vida, luta e consciência social

Antes de qualquer título acadêmico, Isaías Ehrich se define como um sonhador. Nascido em São Gonçalo, no sertão paraibano, e profundamente ligado à cidade de Cajazeiras, sua terra adotiva, o escritor carrega uma relação afetiva intensa com os lugares que o formaram.

É ali, entre raízes e deslocamentos, que construiu não apenas sua identidade pessoal, mas também sua visão de mundo e de literatura.

Cuidador da família e dos amigos, Isaías encontra nesses vínculos a razão diária para seguir escrevendo, ensinando e lutando.

A escrita, em sua trajetória, nunca foi um luxo nem um exercício isolado: sempre esteve ligada à vida concreta, às pessoas, às dores e às urgências sociais que atravessam o Nordeste e o Brasil.

Da agropecuária às letras: o nascimento do escritor

Curiosamente, os primeiros rabiscos poéticos de Isaías surgiram quando ele ainda era Técnico em Agropecuária, fase em que também desenvolveu um profundo amor pela terra e pela Agronomia.

A literatura, porém, encontrou nele terreno fértil para crescer. Graduou-se em Letras, especializou-se em Língua Portuguesa e Literatura, tornou-se Mestre em Linguagem e Ensino e, posteriormente, Doutor em Letras.

Sua pesquisa acadêmica se volta para a Literatura Paraibana, com especial atenção à obra não canônica A Barragem, da escritora Ignez Mariz, autora que se tornaria uma referência central em sua produção intelectual.

Ao longo dessa trajetória, Isaías construiu uma carreira sólida como professor de Língua Portuguesa nas redes municipal e estadual da Paraíba, além de ter atuado em gestão escolar, coordenação pedagógica e conselhos educacionais.

Militância, ensino e palavra como denúncia

Desde a adolescência, Isaías esteve envolvido em movimentos sociais, sobretudo nas áreas rural e educacional. Essa militância moldou seu olhar crítico e atravessa sua escrita até hoje. Para ele, a palavra é ferramenta de luta, denúncia e transformação político-social.

A escrita, nesse sentido, não se limita ao campo literário: dialoga com o cotidiano, com as desigualdades e com as estruturas de poder que silenciam vozes.

Ainda assim, sua poesia evita o panfleto. Prefere a sutileza reflexiva, as “alfinetadas sociais” que provocam mais do que impõem.

Professores que acendem vocações

Isaías costuma afirmar que sua relação com a escrita começou quando começou a ler. Lia e recontava mentalmente as histórias, em um exercício quase intuitivo de recriação.

No Ensino Médio, duas figuras foram decisivas: as professoras Francinez Barbosa Martins e Rosângela Freire, responsáveis por despertar nele o amor profundo pela Língua Portuguesa e pelas múltiplas nuances da Literatura.

Aos 13 anos, teve poemas publicados em uma antologia escolar; um gesto simples, mas simbólico, que plantou a semente do escritor. Com o tempo, a escrita acadêmica ganhou espaço, mas a poesia nunca o abandonou completamente.

Livros, percursos e amadurecimento literário

Em 2015, Isaías publica Veneno Poético, seu primeiro livro de poemas, pela editora All Print. É nesse momento, ao segurar o livro em mãos, que a consciência de ser escritor floresce de vez.

No ano seguinte, lança o livro acadêmico Entre os apitos da casa-de-força: a representação social do romance “A Barragem”, aprofundando sua pesquisa sobre Ignez Mariz.

Após uma década marcada por artigos científicos, capítulos de livros e participações em antologias, retorna à poesia com Permito-me ser poema (2025), pela editora Appris, obra que marca um novo estágio de maturidade estética e existencial.

Quando a fotografia vira verso

Permito-me ser poema nasce de um diálogo entre imagem e palavra. Os poemas foram inspirados, inicialmente, por fotografias de Kilson Pinheiro.

Ao ser convidado a opinar sobre algumas imagens, Isaías respondeu não com críticas técnicas, mas com poemas. Mais tarde, somaram-se os olhares de Cesinha Pivetta, ampliando o campo sensível da obra.

Além das fotografias, o cotidiano, as pessoas e os lugares também alimentam os versos, sempre em tom reflexivo, convidando o leitor a enxergar além da superfície.

Um estilo livre, narrativo e socialmente atento

Isaías define sua escrita como livre. Não se prende a escolas literárias, métricas ou rimas fixas. A inspiração vem, e o poema flui.

Embora o eu-lírico apareça em primeira pessoa, raramente fala de si: prefere dar voz a experiências coletivas, tensões sociais e inquietações humanas.

Mesmo nos poemas, há um forte veio narrativo, reflexo de seu interesse também pelo conto, pela crônica e pelo romance. Parte desses textos permanece guardada em seu blog pessoal, como quem arquiva fragmentos de memória à espera do tempo certo.

Embora seus poemas frequentemente dialoguem com o amor e a paixão, Isaías assume um olhar cético sobre o amor romântico, que considera uma idealização herdada do oitocentismo.

Seu amor real se volta à família, aos amigos, às terras que o constituem. Sua paixão verdadeira é a escrita e a docência.

Permitir-se ser poema

Ao final de Permito-me ser poema, Isaías deseja que o leitor atribua novos significados às imagens e aos versos, despertando para outros modos de ver a vida, o cotidiano e a si mesmo. Permitir-se ser poema é, para ele, aceitar as múltiplas possibilidades de existir, sentir e perceber o mundo.

Entre novos projetos: livros de contos, poemas, um romance e produções acadêmicas, Isaías Ehrich segue escrevendo como quem insiste no sonho.

E deixa um recado simples e firme: nunca desistir. Porque escrever, para ele, é também um ato de resistência.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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