A Cidade de Giges, do autor Dennis Penna Carneiro, é uma obra fantástica

Em A Cidade de Giges, de Dennis Penna Carneiro, o conflito não começa com violência, mas com uma inquietação quase imperceptível, um desconforto diante de um livro. É o suficiente para que algo comece a se mover em uma cidade pequena, organizada em torno de certezas rígidas, onde o conhecimento não é exatamente proibido, mas cuidadosamente controlado.

Giges é construída sobre essa ideia de ordem. Uma cidade que funciona porque todos parecem saber o seu lugar, o que podem dizer, o que devem aprender. E, no centro desse equilíbrio frágil, está a biblioteca; um espaço que guarda mais do que deveria, que permite mais do que é considerado seguro. É ali que está Éthos.

Um bibliotecário contra a corrente

Éthos não é um herói no sentido tradicional. Ele não chega impondo mudanças nem carregando discursos inflamados. O que o move é algo mais simples e, naquele contexto, mais perigoso: a crença de que o conhecimento não deve ser limitado.

Ele cuida da biblioteca como quem protege um território ameaçado. E quando esse espaço começa a ser questionado, ele entende que não pode mais permanecer apenas como observador.

A entrada de Éthos na política não vem de ambição, mas de necessidade. E é nesse momento que o livro muda de direção.

Ideias também se espalham

A metáfora da “erva daninha” que atravessa a obra não é apenas estética, ela organiza toda a narrativa. Em Giges, o problema não são ações isoladas, mas ideias que começam a circular, a incomodar, a romper o que antes parecia estável.

O episódio envolvendo um livro de filosofia é o ponto de partida. Pequeno à primeira vista, mas suficiente para expor o quanto a cidade está sustentada por um tipo de pensamento único.

A partir daí, qualquer tentativa de questionamento passa a ser vista como ameaça. E o que antes era controle discreto se torna mais evidente.

Empírikos e a tentativa de abrir espaço

Ao lado de Éthos, surge Empírikos, um ex-professor que carrega, no próprio corpo, o deslocamento de quem já não pertence mais ao sistema. Ele não ocupa mais o espaço de fala que um dia teve, mas ainda carrega o que sabe.

A parceria entre os dois não é idealizada. Ela nasce da necessidade de resistência, da tentativa de criar uma alternativa ao único partido que domina a cidade.

Mas o livro deixa claro desde cedo: não se trata de uma disputa equilibrada. De um lado, há uma estrutura consolidada, sustentada por tradição, medo e poder. Do outro, uma tentativa ainda frágil de abrir espaço para o pensamento.

O peso do fanatismo

Um dos pontos mais consistentes da narrativa é a forma como o fanatismo é construído. Não aparece como algo repentino ou exagerado. Ele se forma aos poucos, dentro das relações, nos discursos repetidos, na forma como a comunidade se organiza.

Não são apenas indivíduos defendendo ideias: é um sistema inteiro que se sustenta na manutenção dessas crenças. E isso torna o conflito mais denso.

Porque não há um único antagonista. O problema está espalhado. Está nas estruturas, nas escolhas coletivas, na forma como o conhecimento é filtrado e controlado.

Quando o estranho começa a fazer parte

O uso do realismo fantástico entra de forma sutil, mas eficaz. Não há ruptura brusca com a realidade, mas um deslocamento progressivo.

Pequenos elementos estranhos começam a surgir, intensificando a sensação de que algo não está completamente sob controle.

Esses elementos não estão ali para ornamentar a história. Eles ampliam o desconforto. Funcionam como uma extensão do próprio conflito: quando o pensamento é limitado, o que escapa desse controle passa a parecer ainda mais ameaçador.

Personagens como ideias vivas

Os personagens em A Cidade de Giges carregam uma dimensão simbólica evidente, mas não se tornam distantes por isso.

Éthos representa a resistência do pensamento. Empírikos, a experiência deslocada. Já os que sustentam o poder refletem a necessidade de manter tudo como está.

Em alguns momentos, essa construção mais alegórica fica clara, mas ela não enfraquece a narrativa. Pelo contrário, reforça o que o livro quer discutir.

Cada personagem ocupa um lugar dentro desse embate maior. E nenhum deles está completamente confortável ali.

A violência que cresce sem aviso

No início, Giges parece uma cidade pacata. Sem grandes conflitos, sem rupturas visíveis. Mas essa estabilidade vai sendo desmontada à medida que as ideias entram em choque.

O livro constrói muito bem essa progressão. Primeiro, o desconforto, depois, a divisão e em seguida, o confronto.

E, quando se percebe, a violência já faz parte da dinâmica da cidade. Não como algo externo, mas como consequência direta do que foi sendo alimentado.

Uma narrativa que não se alonga

Com pouco mais de cem páginas, o livro não se perde em excessos. A escrita de Dennis Penna é direta, sem ornamentações desnecessárias, o que contribui para o ritmo. Mas isso não significa superficialidade.

Os temas são densos: conhecimento, controle, educação, poder, crença. Tudo isso aparece de forma integrada à história, sem interromper a narrativa para explicar.

O leitor é levado a acompanhar os acontecimentos e, ao mesmo tempo, a refletir sobre eles.

O que Giges revela

A Cidade de Giges não se limita a contar uma história sobre uma cidade fictícia. Ela constrói um cenário que dialoga com questões muito concretas: quem decide o que deve ser aprendido? Até que ponto o conhecimento pode ser visto como ameaça? E o que acontece quando questionar passa a ser perigoso?

O livro não oferece respostas fechadas. Mas deixa claro que o maior risco não está apenas nas ideias que circulam, e sim na tentativa de impedi-las.

No fim, Giges não é apenas um lugar isolado. É um retrato de como uma sociedade pode se organizar em torno do controle, e de como esse controle começa a ruir quando alguém decide, simplesmente, pensar diferente.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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