Humberto Bona: conheça o autor que transformou a experiência médica em uma metáfora sobre reconstrução pessoal
Durante mais de 15 anos, Humberto Bona construiu sua carreira olhando para o interior do corpo humano. Como médico endoscopista e formador de residentes especialistas, acostumou-se a identificar obstruções, localizar corpos estranhos e intervir para restabelecer a saúde de seus pacientes. Fora do ambiente médico, porém, uma sequência de acontecimentos o levou a direcionar esse mesmo olhar para a própria vida. Dessa mudança de perspectiva nasceu Corpo Estranho: A Endoscopia da Alma, obra em que experiência pessoal, medicina, espiritualidade e reflexões sobre transformação se encontram.
O nascimento da filha Isadora, com surdez profunda decorrente do vírus Zika, foi seguido pela morte do pai e por um divórcio. Diante dessas experiências, Humberto atravessou um período de crise existencial e começou a perceber uma correspondência entre sua profissão e o processo interno que vivenciava.
Se na medicina ele procurava aquilo que comprometia o funcionamento do organismo, em sua reconstrução pessoal passou a se perguntar quais seriam as “obstruções” que carregava emocionalmente. A endoscopia tornou-se, então, metáfora para uma investigação de si mesmo.
Quando a experiência se transforma em escrita
Humberto não chegou à literatura a partir de um projeto antigo de se tornar escritor. Define sua entrada nesse universo como resultado de um testemunho e da convergência entre diferentes aspectos de sua trajetória.
De um lado estava o médico, habituado à prática clínica. De outro, o professor que há mais de uma década traduz conhecimentos complexos durante a formação de especialistas. Havia ainda o homem tentando compreender acontecimentos que modificaram profundamente sua vida.
A escrita começou por meio de anotações, reflexões e descobertas realizadas durante esse processo de auto-observação. Inicialmente, o material estava ligado à própria experiência. Com o tempo, Humberto decidiu organizá-lo em uma estrutura que pudesse ser compartilhada com outras pessoas.
Dessa organização surgiram nove etapas: Desejo, Propósito, Programação, Ruído, Medo, Identidade, Equação da Realidade Inédita, Ciclo e Harmonia.
Corpo Estranho passou, assim, de registro pessoal a obra estruturada como uma jornada progressiva.
A endoscopia como linguagem para olhar para dentro
A metáfora médica não aparece apenas no título. Ela atravessa a construção do livro e determina a maneira como Humberto conduz sua narrativa.
A intenção é fazer com que o leitor observe determinadas questões internas como quem acompanha um procedimento de investigação: primeiro é preciso perceber que algo interfere no caminho, depois identificá-lo e, a partir daí, buscar possibilidades de intervenção e restauração.

Essa lógica permitiu ao autor evitar uma reunião de capítulos independentes. A obra procura reproduzir uma sequência inspirada na própria dinâmica de um procedimento médico, passando por diagnóstico, identificação e remoção das obstruções até chegar à ideia de restabelecimento.
A experiência profissional, portanto, não funciona apenas como parte da biografia de Humberto. Ela fornece a linguagem que sustenta sua proposta literária.
Ciência e fé na mesma investigação
Cristão, Humberto também incorpora a fé à estrutura de Corpo Estranho. Os capítulos são acompanhados por referências bíblicas colocadas em diálogo com conceitos científicos apresentados ao longo da obra.
Entre os assuntos abordados estão neuroplasticidade, epigenética, coerência cardíaca, dopamina e o Sistema Ativador Reticular Ascendente (SARA). O autor também recorre a conceitos que associa à física quântica para desenvolver sua chamada “Equação da Realidade Inédita”, apresentada como R = (A × S × D) ÷ L.
Ao trabalhar com campos tão diferentes, Humberto procura utilizar a experiência adquirida como professor para tornar a linguagem compreensível a leitores sem formação médica. Sua proposta é apresentar conceitos técnicos de maneira acessível e conectá-los às reflexões pessoais que conduzem o livro.
A primeira pessoa é fundamental nessa construção. Em vez de se retirar da narrativa, ele expõe episódios relacionados à filha, ao luto, ao divórcio e ao processo de reconstrução. A escolha pelo registro confessional pretende aproximar o conteúdo da experiência concreta que deu origem à obra.
Um livro pensado também para ser preenchido
A leitura proposta por Humberto não termina no texto principal. Cada capítulo possui um “Caderno de Ativação”, composto por perguntas e exercícios.
A ideia é fazer com que o leitor não apenas acompanhe a trajetória narrada, mas registre as próprias percepções ao longo do processo. Corpo Estranho foi concebido, nas palavras do autor, para ser também escrito por quem o lê.
Essa característica nasceu do próprio processo criativo. Antes de transformar suas ideias em método, Humberto experimentou consigo práticas de respiração, exercícios relacionados à coerência cardíaca e formas de trabalhar narrativas pessoais. Posteriormente, organizou parte dessas experiências dentro da arquitetura dos nove passos.
O manuscrito ainda passou por uma etapa de refinamento editorial voltada à coesão e à redução de redundâncias, buscando apresentar cada conceito no momento correspondente à progressão imaginada para o leitor.
Da obra para um projeto mais amplo
A publicação também se conecta ao Projeto Endoscopia da Alma, fundado por Humberto para reunir as ideias desenvolvidas a partir de sua trajetória. Por meio dele, o médico atua com mentorias e pretende expandir o conteúdo para palestras e programas voltados à transformação pessoal.
Nesse sentido, Corpo Estranho ocupa uma posição particular em sua produção: é seu primeiro livro, mas também funciona como registro inicial de um projeto que pretende desenvolver em outros formatos.
A literatura continuará fazendo parte desse percurso. Humberto já começou a trabalhar em uma nova obra, embora o projeto ainda esteja em estágio inicial e sem detalhes definidos.
Sua entrada na escrita preserva, assim, uma ligação direta com a profissão que exerceu por mais de 15 anos. O médico acostumado a procurar o que estava escondido dentro do corpo encontrou na própria experiência a imagem central de sua literatura. Em Corpo Estranho: A Endoscopia da Alma, Humberto Bona transforma esse procedimento em uma pergunta dirigida para dentro: antes de buscar uma mudança, o que precisamos identificar em nós mesmos para compreender aquilo que continua obstruindo o caminho?











