Sob o Trópico de Capricórnio, do autor Pedro Augusto da Silveira, é um romance inebriante que mostra os desafios de crescer quando o mundo não abre espaço

Em Sob o Trópico de Capricórnio, Pedro Augusto da Silveira nos coloca ao lado de Ricardo Buíse quando a vida ainda deveria ser simples, mas já não é. Aos 14 anos, ele tenta seguir o ritmo esperado de qualquer adolescente, enquanto lida com a ausência do pai e com sentimentos que começam a surgir sem encontrar espaço para existir.

Nada aqui chega de forma leve ou organizada. O que cresce dentro de Ricardo vem misturado: desejo, confusão, curiosidade e medo. E, ao invés de encontrar respostas, ele aprende cedo a esconder, a conter, a existir em silêncio.

O primeiro amor não chega leve

A relação com Márcio marca profundamente essa fase inicial. Não é um romance simples, nem bonito de forma confortável. Existe intensidade, desejo, curiosidade, mas também há negação, vergonha e um desequilíbrio emocional que se torna impossível ignorar.

Márcio vive essa conexão com Ricardo no segredo, enquanto, em público, sustenta uma imagem que o protege. Namora uma garota, reforça comportamentos que mascaram sua própria verdade e, em alguns momentos, chega a reproduzir a violência que tenta esconder dentro de si.

E pesa ainda mais porque Ricardo aceita, insiste, se envolve. Há uma dependência emocional que não é romantizada. Pelo contrário, o livro escancara o quanto esse tipo de vínculo pode ser confuso, especialmente quando nasce em um ambiente que não permite nomear o que está sendo vivido.

Algumas cenas dessa fase são difíceis de atravessar. Não pela carga explícita, mas pelo que elas revelam: o quanto o desejo pode vir acompanhado de culpa, medo e silêncio.

O peso de existir escondido

O contexto em que a história se passa não é apenas pano de fundo, é parte ativa do conflito. O Brasil dos anos 1980 carrega uma rigidez social que transforma qualquer desvio do esperado em motivo de repressão. E Ricardo cresce nesse ambiente.

E isso molda tudo: a forma como ele se vê, como se relaciona, como se permite (ou não) sentir. Há uma constante tentativa de se encaixar, de corresponder ao que esperam dele, mesmo que isso signifique se afastar de si mesmo.

O livro constrói esse processo com honestidade. Não há discursos didáticos, mas há situações que deixam claro o impacto da homofobia, da hipocrisia social e da falta de espaço para existir com liberdade. E o mais incômodo é perceber o quanto disso ainda ecoa nos dias atuais.

Quando romper não significa se libertar

O fim da relação com Márcio não traz alívio imediato. Não há sensação de libertação. O que fica é um rastro de dor, confusão, marcas que Ricardo ainda não sabe como processar. Ele tenta recomeçar.

Primeiro, buscando se adequar. Tentando seguir um caminho mais “aceitável”, mais previsível. Depois, ao ingressar na universidade, há uma mudança mais concreta: um novo espaço, novas pessoas, outras possibilidades Mas o passado não desaparece.

Ele se infiltra nos comportamentos, nas escolhas, na forma como Ricardo se relaciona consigo mesmo e com os outros. E é nesse ponto que o desenvolvimento do personagem ganha força.

Gustavo e o amor que desacelera

A entrada de Gustavo muda o ritmo da narrativa. Diferente da relação anterior, o vínculo entre eles não nasce da urgência ou do conflito imediato. Ele se constrói aos poucos, entre conversas, convivência e uma aproximação que mistura amizade, cuidado e algo que nenhum dos dois sabe exatamente como definir. E talvez nem precise.

Existe uma delicadeza nesse romance que contrasta com tudo o que veio antes. Não porque ele seja perfeito, mas porque ele permite respirar. Pela primeira vez, Ricardo parece experimentar um afeto que não o empurra para o limite o tempo todo.

Mas isso não significa ausência de tensão. O medo ainda está ali. As pressões externas continuam existindo. O receio de se expor, de nomear o que sente, de enfrentar o julgamento, tudo isso acompanha cada passo desse relacionamento. E o livro não tenta resolver isso com facilidade.

Desejo, afeto e contradição

Um dos pontos mais interessantes da narrativa é a forma como ela lida com o desejo. Não como algo isolado ou puramente físico, mas como parte de uma construção emocional complexa.

Existe erotismo na história, sim. Mas ele nunca aparece desconectado do contexto. Ele vem carregado de significado, de conflito, de descoberta. Em alguns momentos, aproxima. Em outros, confunde. E isso torna tudo mais realista.

Ricardo é um personagem intenso, mas não de forma exagerada. Sua complexidade está nas contradições: ele quer se encontrar, mas também se sabota; deseja amar, mas teme as consequências; busca pertencimento, mas não sabe onde isso é possível. Essa construção evita qualquer simplificação.

Uma escrita que não desvia do incômodo

Pedro Augusto da Silveira conduz a narrativa com uma escrita envolvente, direta quando precisa ser, mas também sensível nos momentos certos. Há trechos que fluem com leveza, especialmente na fase universitária, enquanto outros carregam um peso que exige mais do leitor.

O livro não quer ser confortável o tempo todo. Ele propõe uma experiência que alterna entre o acolhimento e o desconforto, porque é assim que a jornada de Ricardo se constrói.

O campus da Unicamp surge como um respiro, mas não como solução. É um espaço de expansão, de novas possibilidades, mas também de continuidade dos conflitos internos.

Ao longo da leitura, fica evidente que Sob o Trópico de Capricórnio não é apenas uma história de amor. É uma história sobre o custo emocional de tentar ser quem se é em um mundo que não facilita esse processo.

Cada relação que Ricardo vive deixa algo. Nem sempre bom. Nem sempre leve. Mas sempre significativo. E isso levanta uma questão que permanece mesmo depois do fim: quantas versões de nós mesmos precisamos atravessar até conseguir existir com mais aceitação?

O que permanece

Ao terminar o livro, não há sensação de conclusão fechada. Existe continuidade. Afinal, trata-se do primeiro volume de uma trilogia “O Lado Quente do ser” e isso se reflete na forma como a história se encerra: mais como um ponto de passagem do que como um fim.

Mas algo já se estabelece com força. A percepção de que o amor, nesse contexto, não é apenas encontro. É conflito, descoberta, dor e, às vezes, reconstrução.

E, principalmente, a certeza de que silenciar quem se é pode deixar marcas profundas demais para serem ignoradas.

É uma leitura que provoca, incomoda e, em muitos momentos, aperta o peito. Não pela tentativa de chocar, mas pela forma honesta com que expõe uma jornada de crescimento atravessada por desejo, medo e a busca, ainda inacabada, por pertencimento.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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