Sete Aléns, de Kildary Costa, é uma travessia literária por sete mundos onde morre-se para renascer

Sete Aléns não se comporta como um livro comum. Desde as primeiras páginas, Kildary Costa deixa claro que não está interessado em contar uma história linear, com começo, meio e fim bem definidos. O que ele propõe é outra coisa: uma travessia. Um deslocamento constante entre mundos, estados de existência e versões possíveis do que entendemos como vida, morte e identidade.

A ideia de que a morte pode ser apenas um hábito, algo recorrente, quase cotidiano, sustenta toda a obra. E isso muda completamente a forma como o leitor se posiciona diante das narrativas. Não há fim definitivo, não há estabilidade. Tudo está em movimento.

Sete mundos, sete espelhos

A estrutura da obra se organiza em sete narrativas que, à primeira vista, parecem independentes. Cada uma apresenta personagens, cenários e conflitos próprios. Mas, à medida que a leitura avança, fica evidente que essas histórias não estão isoladas, elas se comunicam de forma sutil, quase invisível.

Os temas se repetem sob novas formas: perda, identidade, memória, reinvenção. Os personagens se desfazem e se reconstroem, às vezes literal, às vezes simbolicamente. O tempo não segue lógica linear, e o espaço deixa de ser um limite claro.

O leitor não é conduzido por respostas, mas por sensações. Cada conto funciona como um espelho, às vezes refletindo, às vezes distorcendo, e o que aparece ali depende tanto do texto quanto de quem lê.

Uma escrita que mistura delírio e sensibilidade

A linguagem de Kildary Costa é um dos pontos mais marcantes da obra. Existe um equilíbrio interessante entre o lirismo e a reflexão filosófica. Em alguns momentos, a escrita se aproxima da poesia; em outros, assume um tom mais questionador, quase provocativo.

Há uma sensibilidade constante na forma como os personagens são construídos. Mesmo quando tudo ao redor parece abstrato, existe emoção concreta ali. Medo, desejo, dúvida, busca; sentimentos que ancoram a leitura mesmo quando a lógica se dissolve.

Frases como “Aos balaios vou morrendo, e aos poucos, renascendo” não funcionam apenas como efeito estético. Elas condensam o espírito do livro: essa ideia de transformação contínua, de existir em camadas.

Histórias que desafiam a lógica

Alguns contos se destacam pela forma como deslocam completamente a percepção do leitor. Em “Reflexos Imperfeitos”, por exemplo, a noção de corpo e identidade se embaralha, sugerindo que aquilo que vemos é apenas superfície.

Já em “A Dama de Fogo”, há uma construção mais sensorial, quase tátil, onde a personagem parece fragmentar-se em versões de si mesma.

“Anne e o Avesso do Sol” carrega um peso emocional mais evidente, com uma atmosfera que toca diretamente em temas como perdão e reconciliação. É um dos momentos em que o livro se aproxima mais de algo reconhecível, sem perder sua complexidade.

E “As Cartas de Pompeia” fecha a experiência com uma sensação de permanência dentro da impermanência. Há algo ali que ecoa depois da leitura, como se a história não tivesse terminado completamente.

Uma leitura que pede tempo

Sete Aléns não é um livro para ser consumido rapidamente. Ele exige pausa. Exige que o leitor volte, releia, repense. Não porque seja difícil de entender, mas porque não se entrega de uma vez.

Há camadas. E essas camadas se revelam aos poucos. A ausência de respostas prontas pode incomodar quem busca uma leitura mais direta, mas é justamente isso que torna a experiência tão particular. O livro não quer fechar sentidos: quer abrir possibilidades.

Por trás das construções mais abstratas, existe uma base muito humana. Os contos falam sobre morrer aos poucos no cotidiano, sobre se reconstruir depois de perdas, sobre carregar versões antigas de si mesmo.

A metáfora da morte aparece o tempo todo, mas nem sempre ligada ao fim físico. Muitas vezes, ela se manifesta em mudanças internas, em rupturas silenciosas, em momentos em que algo deixa de existir para que outra coisa possa surgir.

Uma experiência mais do que uma leitura

Chamar Sete Aléns de coletânea de contos é, de certa forma, reduzir o que o livro propõe. Ele funciona mais como uma experiência literária contínua, onde cada narrativa amplia a anterior, mesmo sem seguir uma sequência lógica.

Kildary Costa constrói um universo onde tudo pode ser interpretado, e essa liberdade é parte essencial da obra. Não existe uma forma correta de ler. Existe a forma como cada leitor atravessa.

E atravessar é a palavra certa. Porque, ao final, a sensação não é de ter concluído um livro, mas de ter passado por algo profundamente imersivo e transformador.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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