Claudio Schroeder Möller: conheça o autor que fez do bloqueio criativo o início de um novo ciclo

Algumas histórias não nascem prontas, elas amadurecem no tempo, atravessam fases da vida, silenciam por anos e, quando finalmente encontram saída, carregam dentro de si tudo aquilo que foi vivido no intervalo. A trajetória de Claudio Schroeder Möller com a escrita parece seguir exatamente esse caminho: longo, interrompido, inquieto e, sobretudo, inevitável.

Nascido no Rio de Janeiro, em 9 de setembro de 1983, Claudio teve desde cedo uma vida marcada por deslocamentos. Ainda criança, mudou-se para a Alemanha, onde viveu dos 2 aos 5 anos, antes de retornar ao Brasil e se estabelecer em Porto Alegre. Esse movimento entre culturas, idiomas e realidades distintas talvez já anunciasse um traço que o acompanharia ao longo da vida: a sensação constante de estar em busca de um norte.

Um percurso feito de desvios

Sua trajetória acadêmica e profissional reflete essa inquietação. Em 2004, ingressou no curso de Letras na UFRGS, onde, além do contato mais profundo com a linguagem, viveu um encontro que marcaria sua vida pessoal: foi ali que conheceu Juliane de Moura, que mais tarde se tornaria sua esposa.

Mas o caminho não seguiu linear. Em meio às exigências do curso e ao impacto de um universo novo, Claudio decidiu interromper a graduação. Anos depois, mergulhou na alta gastronomia, em 2007, e, em seguida, encontrou outro rumo ao se formar em Nutrição pela mesma universidade, entre 2008 e 2012.

Ainda assim, nenhuma dessas áreas parecia definitiva. Trabalhou como nutricionista por um período, até se reconhecer no universo da tradução, um espaço onde linguagem e interpretação voltam a ocupar o centro.

Paralelamente a tudo isso, a vida seguia. Em 2017, tornou-se pai de Dárien. E, em 2019, teve seu primeiro contato com o xamanismo e as medicinas ancestrais da floresta, experiências que ampliaram ainda mais sua percepção sobre o mundo e sobre si mesmo.

O nascimento de uma história e de um bloqueio

Mas é preciso voltar a 2004 para entender o que realmente define sua trajetória como autor.

Nos primeiros meses do curso de Letras, Claudio começou a sentir algo difícil de nomear na época: uma sobrecarga mental intensa. Era um excesso de informações, estímulos e emoções que, sem compreensão ou acolhimento, se transformava em ansiedade, paralisia e confusão.

Sem saber exatamente como lidar, encontrou na escrita uma forma de organizar o caos. Assim nasceu Despertar.

Mais do que uma história, o livro começou como uma metáfora para tudo o que ele estava vivendo: um mundo novo, pessoas desconhecidas, situações quase “alienígenas”, sentimentos que oscilavam entre fascinação e medo, entre esperança e desistência, entre luz e treva.

Mas, quando chegou ao capítulo 8, algo travou. E não foi por pouco tempo.

Vinte anos de silêncio

O que poderia ter sido apenas uma pausa se transformou em um bloqueio criativo de duas décadas. Durante 20 anos, Claudio revisitava o manuscrito mensalmente, relendo aquelas páginas inacabadas com uma mistura de frustração e incredulidade.

Era como se sua mente tivesse simplesmente interrompido o processo, uma “aposentadoria por invalidez”, como ele próprio define.

Nesse intervalo, a vida seguiu em outras direções. Profissão, família, experiências. Mas a história permaneceu ali, latente, esperando. Até 2024.

O momento da virada

Foi em uma conversa despretensiosa, durante a madrugada, com o amigo Rafael Orbetelli de Sá, que algo mudou. Ambos enfrentavam bloqueios criativos, cada um à sua maneira. Rafael pediu para ler o manuscrito de Despertar.

No dia seguinte, veio o impulso que faltava: ele praticamente intimou Claudio a terminar o livro.

O gesto, simples à primeira vista, teve um efeito profundo. Talvez tenha sido o fato de alguém finalmente ter lido sua história. Ou o reconhecimento de que aquelas páginas, mesmo incompletas, já tinham valor.

Durante a escrita, um irmão de caminhada e longa amizade, Marco Antônio Ventura Júnior, foi outro pilar importante para o andamento do livro.

Essa comunicação fez com que ele mesmo começasse a sua obra, ainda por ser concluída, o que enche Claudio de orgulho, não só pelo apoio, mas também por servir de inspiração para um amigo querido.

O que antes parecia impossível aconteceu em pouco tempo. Em apenas um mês, Despertar estava finalizado, com mais de 350 páginas.

Uma mente que escreve em intensidade

A escrita de Claudio Schroeder Möller reflete diretamente a forma como ele percebe o mundo: intensa, caótica, profundamente emocional e, ao mesmo tempo, irônica.

Ele próprio descreve sua mente como um emaranhado de pensamentos movidos por múltiplas camadas, um fluxo contínuo onde emoções, ideias e referências se misturam sem linearidade.

Essa característica se traduz em uma narrativa que não busca ordem perfeita, mas autenticidade. Há, em seu estilo, uma energia quase urgente, como se cada palavra precisasse ser capturada antes de desaparecer.

A influência de autores como Douglas Adams também aparece, especialmente no uso do humor e do absurdo como ferramentas para lidar com questões complexas.

Escrever como quem tenta acompanhar o próprio pensamento

Seu processo criativo reforça essa intensidade. A escrita não é planejada com antecedência, ela surge de forma repentina, quase física. “Como uma coceira na base do cerebelo”, ele descreve.

Quando a ideia vem, não há pausa. Claudio escreve tentando acompanhar cenas que já estão acontecendo em sua mente, como se estivesse assistindo a um episódio ao vivo e precisasse transcrevê-lo em tempo real.

Nesse processo, muito se perde, ideias que passam rápido demais, imagens que não conseguem ser capturadas. Mas o que fica já carrega uma força significativa.

A música também ocupa um papel essencial. Trilhas sonoras específicas ajudam a construir atmosferas e emoções, guiando a escrita de cada cena. Bandas como Hammock, Radiohead, Mazzy Star e Cigarettes After Sex não são apenas referências, são parte do próprio processo criativo.

O que vem depois do despertar

Com a publicação de Despertar em novembro de 2024, Claudio não encerra sua jornada, ele a inicia de forma concreta.

Já trabalha na continuação, intitulada Redenção, que traz uma nova protagonista, Liara, e promete aprofundar conexões com a obra anterior.

Mais do que uma sequência direta, o novo livro amplia o universo narrativo e sugere que ainda há muito a ser explorado.

Entre silêncio e expressão

A história de Claudio Schroeder Möller é, antes de tudo, sobre tempo. Sobre respeitar processos, mesmo quando eles parecem incompreensíveis. Sobre aceitar pausas que, à primeira vista, parecem definitivas. Mas também é sobre retorno.

Porque algumas histórias podem até esperar, mas não desaparecem. E quando finalmente encontram espaço, vêm carregadas de tudo aquilo que foi vivido no silêncio.

Despertar não é apenas o título de um livro. É, de certa forma, o nome de uma trajetória inteira.

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Jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Mestre em Comunicação pela UFPE. Amante da cultura pop, apaixonado por livros e adora escrever sobre temas diversos. Além disso, é um entusiasta de música, filmes e séries, sempre buscando explorar e compartilhar suas impressões sobre o mundo do entretenimento.

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